sexta-feira, 18 de julho de 2008

TEREZA AMAVA RAIMUNDO

por Rafael Moreno


Tereza amava Raimundo porque, dizia, ele parecia ter vindo de outro mundo. É que gostava de rimas. Então falava também que ele não tinha nada de imundo. Tereza gostava de rimas e queria conhecer um homem que a chamasse de cereja. Amava Raimundo. Desde aquele dia em que ele entrou na loja trajando camisa azul - a cor de quem veio para ser gerente. Camisa azul, diferente do resto dos vendedores. Calça preta, gravata preta e a camisa azul. Ficava bonito assim. Ainda por cima, vinha da Bahia. Da Bahia direto para ser gerente da Insinuante de Casa Forte. Aquele sotaque carioca a deixava um pouco nervosa, sem conseguir falar, olhando o chão de azulejos bege quando ele passava por perto, ou a fivela da sua sandália.

Um belo dia de sol (Tereza dizia que os belos dias de chuva eram apenas para os apaixonados), na hora do intervalo, sem querer, encontrou Raimundo no salão de beleza. Ele estava cortando o cabelo. Ela tinha ido depilar a perna - ia para Itamaracá no fim de semana. Ficou encabulada, escondendo o rosto atrás da Contigo. Mas ele a viu pelo espelho.

- Olá.
- Oi, seu Raimundo.
- Tudo bom?
- Tudo sim.
- Como é mesmo seu nome? Desculpa, sei que a gente se vê lá na loja, mas fica difícil pra mim... é tanta gente...
- Tereza.
- E então, Tereza, cê ta gostando do trabalho?
- Quer ir comigo pra Itamaracá nesse fim de semana?
- Como?

Tereza não sabia como aquilo havia saído da sua boca. Mas agora não adiantava mais colocar a revista na frente do rosto vermelho.

- Vou pra Itamaracá no fim de semana. Se você quiser... é uma ilha. Não fica muito longe...
- Er... não posso, Tereza. Eu e minha noiva marcamos de ir...
- Você tem noiva? E porque não usa anel?
- Mandei apertar, hoje mesmo vou lá para...
- Tudo bem.

Tereza saiu sem nem fazer as pernas e o cantinho. Voltou pra loja a passos apertados, que batiam duros na calçada, mãos fechadas, tronco esticado pra frente. Ficou atrás do balcão, onde vendia sons, ventiladores, ferros de passar e aspiradores de pó. Quando Raimundo entrou na loja, ela apertou play:

Uh
Seus olhos são espelhos d’água
Brilhando você
Pra qualquer um...

Raimundo não entendeu que era com ele. Por isso que Tereza subiu na mesa e começou a cantar, olhando para ele, apontando para ele, se ajoelhando para ele.

Uh
Que vontade de merecer
Um cantinho do seu olhar...

Raimundo virou de costas e se dirigiu ao setor de cama, mesa e banho. Ela aumentou o volume, intercalando a letra da música com gritos de Você vai ser meu, Raimundo! Eu tche amo!

Foi um outro gerente, o Ademar, quem demitiu Tereza. Coitada. Tudo o que queria era alguém que a chamasse de cereja.

4 comentários:

Anônimo disse...

Segredo?
É que Raimundo amava outra Maria, Rafa.
E eu vou ficar esperando, pra saber como foi que ele se apaixonou por ela.
Beijo.

Anônimo disse...

que triste.

Unknown disse...

quase um Nelson Rodrigues hehehe

Anônimo disse...

Olha eu aqui, menino! Adorei o blog e curto muito as crônicas. Vou ler aos pouquinhos. Estarei de visitinha por aqui sempre.

Beijo.