por Rafael Moreno
Tomavam uma cerveja espierta num barbotequim e batucavam, mãos na mesa, violão e tamborim afinados, numa tremenda sussa, tranqüilos, naquela, alguns sambas canções do homem sem queixo Noel Rosa. Foi quando começou Último Desejo, a que faz Perto de você me calo, tudo penso e nada falo, tenho medo de chorar, que João, o Jones Bornéu, se levantou de supetão, como se costuma levantar quem tem surgindo uma boa idéia na cachola, interrompendo a música do homem sem queixo, fazendo parar os diversos, inúmeros, instrumentos de mão – tantan, pandeiro, surdo e repique, que só eram de mão porque batiam na mesa, e deixando até um leve e meio infinito Mi sustenido suspenso, ecoando, no ar.
- Vamos pra casa de Teresa!
- Lá vem.
- Suspendê.
- O homem começou!
- Senta aí, Bornivis.
Mas aí Albuquerque, esse era amigo!, sabia melhor da história. Conhecia bem o Jones. Tava por dentro até da origem do apelido Bornéu. Vejam só vocês. O Albuquerrque sabia das parada. Ah, sabia. João já havia chorado no seu ombro. Ah, havia.
- Fazer o que lá, João? – perguntou enquanto puxava o cigarro da orelha, o isqueiro da meia amarela.
- Quero cantar essa música pra ela. Ia ser perfeito, rapaziada. Dá pra gente fazer uma serenata. A janela é baixinha. Ó. Ia ser perfeito.
E foi então que o Jones, outrora chamado João, levantou as mãos, digo só a direita, fazendo o relógio de prata (ou pelo menos cor de) escorregar pelo braço, assanhando os cabelos que ali estavam, e contorcendo as mãos, deixando-as em gancho, olhou para o céu numa semi-perfeita imitação, que podemos até chamar de imitation, da famousa cena-cena do Ser ou não ser. Então cantou:
- Perto de você me calo, tudo penso e nada falo, tenho medo de chorar... – nesse momento deixa o ar Sheakspeare e leva as mãos ao peito, mais romântico, meio Fágner ou Wando, mas sem os olhos fechados - Nunca mais quero os seus beijos, mas meu último desejo... você não vai me negar...
- Ih.
- Sai daí, Jones.
- Virou do time do Otílio?
- Peraí, pessoal - retomou a palavra o nosso Jones - Vocês precisam tocar esse samba comigo. A Teresa ia gamar. Soltar beijo da janela. Vai uma apostinha?
- Desculpa, Jones.
- Desculpa mesmo.
- Mas o seguinte é o negócio...
- Ela não quer nada com você, Jones.
- É...
- Teresa tá em outro, meu camarada.
- Other one.
- Desculpa.
- Como assim? - e você já deve saber que quem disse isso foi Jones.
- Soube, me disseram por aí nesses lugares, que ela anda paquerando com um rapaz que veio das Bahia, gerente de banco, chamado Raimundo...
Começaram a comentar sobre o caso naquele velho e tão popular fala-fala. E o João, Jones, Bornéu, ficou quem nem dois passarinhos fêmeas quando ficam juntos: de bico calado. Cantoria zero. Chamemos de intimidado. Tímido. Choroso. Olhando pra dentro. Trazia dois algodões no ouvido. Surdo, meu velho. Aquelas vozes e rostos voltados para ele pareciam distantes. Aquelas vozes falavam o inglês e o espanhol que ele nunca estudou direito. Pegou o cavaco que estava deitado na mesa e puxou outra em Dó menor:
Joguei meu cigarro no chão e pisei
Sem mais nenhum aquele mesmo apanhei e fumei
Através da fumaça neguei minha raça, chorando, a repetir...
Enquanto todos continuavam a contar o causo, Albuquerque, esse que era amigo!, acompanhou, batucando com o dedo no tamborim.
Um comentário:
Adoro a fluidez dessa escrita!
Leio de um fôlego, segurando o desejo de, num espasmo de neurose, ler antes o final.
Muito bom!
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