por Rafael Moreno
Às vezes desconfio que alguém – talvez seja um grupo – estuda as coisas que eu gosto. Eles – digamos que seja um grupo - me perseguem: visitam meu computador, entram nas prateleiras de livros do meu quarto, abrem a minha mochila, copiam o meu pendrive, descobrem meus sites favoritos, decoram o que tem no meu mp3, espiam as músicas que baixo, sabem os discos que insisto em comprar, o que levo da padaria, o que lancho, o que me faz fechar os olhos enquanto mastigo.
Tomate seco era como uma descoberta. Pizza de tomate seco com rúcula nem precisava catchup. Hoje eles ocupam todas as saladas. Estão em potes de plásticos nos restaurantes self-services. Decoram oitenta por cento dos crepes. Andam recheando sanduíches naturais. Ficaram mais feios, inclusive.
Fizeram mais - esse pessoal me marca. Transformaram um dos maiores sambistas de todos os tempos num fenômeno de vendas. Zeca Pagodinho. Ele antes tocava nas primeiras rodas de samba que a gente fazia, na piscina do meu prédio com Natasha e Coca-Cola. Hoje uma pessoa que gosta de Saia Rodada sabe cantar Coração em Desalinho.
Banalizaram o All Star. Alguns versos de Vinicius de Moraes. O sushi! Banalizaram o estilo aviador do ray-ban. Luis Fernando Veríssimo. O catupiry da coxinha. No Recife, bandas banalizaram o rei Roberto, estão banalizando Chico Buarque. Banalizaram as universidades. Os diplomas. As pós-graduações. Banalizaram aprender inglês no Canadá. Banalizaram morar seis meses na Espanha. A raça Labrador. O Carolina Herrera 212. Fazer rapel. Câmeras digitais banalizaram a fotografia profissional. Alguns blogs banalizam a literatura. Todo menino que nasce tem o nome de Lucas ou Matheus: andam banalizando nomes de crianças! Vão banalizar, já não tenho dúvidas, o retrô dos anos 80. A Stella Artois. A barba.
Tá bom, dona moda.
Eu, que passo boa parte do meu dia me esforçando para não ser chato, tenho que admitir: não vou com a multidão. Deixo de gostar, naturalmente, sem fazer qualquer esforço, quando alguém que é chicleteiro faz o mesmo que eu. Quero que o bode cozido seja feito uma vez a cada dois meses, em um restaurantezinho sem luxo. Quero escutar Cartola tocando no meu som e não na Rádio Cidade. Quero Dona Ivone Lara numa roda de samba que não toque Ai, mainha, painho quer tu. Quero ler Veríssimo em um livro, não numa corrente de e-mail. Quero encontrar um substituto para o tomate seco. E quero muito que não roubem ele de mim.
16 comentários:
Como me foi dado o direito (e honra) da primeira leitura, me sinto na obrigação de dizer que amizade não é banalizável e não sai da moda. Você tinha razão, eu ia gostar desse! =)
Beijos para o meu amigo de Moraes.
Luba!
como é? tu se esforça pra não ser chato, é?
vai, rafa. se esforça mais um pouquinho que tu consegue.
:)
mesmo tendo o catupiry incluso, não é que eu gostei?
beijo pra tu.
Deixa de ser egoísta mora! Porque as coisas que você gosta, as outras pessoas não podem gostar também?
Vamos dizer SIM ao direito dos chicleteiros terem a chance de gostar de Dona Ivone Lara! Isso não a faz uma artista pior!
Aula de Suely sobre cultura de massa. Aeso, 2003.
Ps- Só uma coisa para ilustrar: gostar das coisas que ninguém gosta está na moda.
Hehehehehehe
Bjoooo
Há uns 10 anos, banalizaram o Radiohead. Aí o Radiohead banalizou a banalização do Radiohead e ficou restrito aos fãs de novo. Como o tomate não pode fazer o mesmo, fico torcendo pra não banalizarem o blueberry. Grande texto rafa. Espero um dia não recebê-lo por email. =P
cogumelos frescos. Esse é o próximo tomate seco. E pelo jeito, o cogumelo não é o único fresco da parada. Trocadilhos que tu deve odiar, porque tu não nega ser publicitário. A coisa ficou pop, tu corre pra o cult? foi isso que entendi?
amei o texto. quanto ao tomate seco, eu nunca gostei. acho que meu organismo já estava prevendo a banalização e se encarregou de me manter à margem dessa nova preferência nacional. eu também gostava de matheus e lucas, mas agora meu filho vai ser Astolfo. Acho que não vai banalizar né. =) beijo pra tu rafa*
tu sempre faz o título antes do texto? :D
ficou massa fera!! gostei deveras.
Sobre a banalização do All Star eu é que tenho direito de reclamar...muito bom o texto.
Abraço
Temo que banalizem este blog.
Sinto falta do quão era legal perder uns minutinhos olhando o cardápio, e dentre todos aqueles nomes estranhos, escolher um que me parecesse bom. Hoje, se chamo meus amigos para irem ao Quina, Kojima ou Yoshi, sou acusado de ostentador. Como se fizesse isso toda semana. Também sinto falta de enxergar em cada All Star um pouquinho de Johnny, Joe, Cj e Mark Ramone. Das meninas que perguntavam "que perfume é esse?".
Mago, as vezes sinto da falta do tempo em que ter um pouquinho de informação e transpor isso nas escolhas, fazia a pessoa se sentir um pouquinho mais especial. Muito massa o texto.
Abração,
Thiago de Melo.
tô com a menina que se chama ludvalenca! deixa de ser chato e deixa os seres humanos de "mau gosto" terem a oportunidade de escutar e apreciar uma dona ivone lara ou um bom cd de uma velha guarda da portela! Eu prefiro que o povo todo só escute isso do que tá tocando brega a torto e a direito por aí! Deixe que banalizem os all stars da vida! A moda agradece! Um voto à liberdade e o poder de escolha de cada um! mas que o texto tá massa tá! parabéns irmão, sempre melhorando a cada dia!
tarta
Bom seria que tu tivesse abandonado o tomate seco antes. A gordinha aqui ia ficar era feliz.
Muito bom o texto, Rafoca.
Beijo em tu.
Nem de tomate seco eu gosto, mas concordo com você que ele foi amplamente banalizado. E Veríssimo, de quem eu tenho até autógrafo, quando for 100% banalizado, quem sabe não já tá com um discípulo preparado? ;)
beijão, Milloka
Texto tão bom que merecia ser banalizado.
Me idetifiquei total com a tua chatice...
saudade danada de tu!
Beijo
estão banalizando até a brodagem.
todo mundo se ama na vida virtual.
não banalizemos, nós, a E-QUI-PE!
você tem nova mensagem
;)
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