segunda-feira, 29 de setembro de 2008

DOMINGO NÃO É DIA DE TELEVISÃO

por Maria Rita Angeiras




Os domingos são como aqueles dias em que você não consegue esquentar os pés nem dormir da dor que o frio faz na coluna. Também são a inquietação dos pombos, a isenção das estátuas e a melancolia das músicas francesas. Domingo é quase clichê, lugar-comum e palavra fácil de achar em bula de antidepressivo. É como água fria na barriga, chuva na praia, livro rasgado, café frio, nome esquecido, chiclete sem gosto, beijo mal dado, história sem final, meia sem par e pior que TPM. Domingo é dia de saudade que incomoda como relógio parado, música arranhada e sinal quebrado. É por isso que as pessoas rezam aos domingos. Elas rezam do domingo mortal, do aperto no coração e do medo constante do recomeço. Domingo é dia de lembrança que não sai da cabeça e dos piores programas de televisão. Eu acordo, almoço, saio, brinco e a barriga dói de tanto rir, mas eu sempre lembro.

Eu sinto saudades. Eu sinto falta de beijo de mãe e pai. Eu sinto falta do calor anestesiante. Eu sinto falta de almoço de família - mais da família que do almoço, pra falar a verdade. Eu sinto falta de nada às vezes ser estranho ou novo. Eu sinto falta de não me preocupar. Eu sinto falta de irmãs, cunhados, primos e outros parentescos que ainda nem têm nome no dicionário. Eu sinto falta de comida quente. Eu sinto falta de não usar a chave de casa. Eu sinto falta de não sentir falta de nada. Mas eu sou feliz como quem visita Paris pela primeira vez e se sente parte de uma coisa absurdamente recorrente, grande e poética; feliz como quem lê os livros de Clarice Lispector com um lápis na mão e fica levemente triste por não ter escrito aquilo antes, mas imensamente feliz por ela ter escrito magnificamente; feliz como quem visita uma praia paradisíaca e vê a vista mil vezes sem deixar de achar sempre linda; feliz como quem dorme na areia da praia e acorda com uma maresia extasiante, uma insolação quase febril de inconsciência do resto do mundo; feliz como quem dança a noite inteira e sente um cansaço físico bom; feliz como quem divide um guarda-chuva com um estranho ou apenas como quem é feliz assim, de graça, só porque se deve ser mesmo.

Eu não rezo aos domingos, mas tenho medo do que, às vezes, o domingo faz com as pessoas – e comigo. E peço não-sei-pra-quem pra ele acabar logo, por favor. Porque é preciso ser feliz, muito feliz.

3 comentários:

Anônimo disse...

lindo!
muito bom saber que você é feliz.
Beijos saudosos pra "minha" Clarice!
Dida.

Anônimo disse...

Acredito que sua segunda-feira compensa qualquer domingo... Saudades! Bjos, Bel

Unknown disse...

Por motivos diferentes, eu me sinto assim tb em muitos domingos.. (já foi pior! kkk)

Que massa que alguém conseguiu descrever isso de uma forma tão poeticamente simples (melhor dizer "simples e tão poética").

Vc me lembrou Clarice... kkkk "levemente triste por não ter escrito aquilo antes; imensamente feliz por ela ter escrito magnificamente".