segunda-feira, 1 de setembro de 2008

MOMENT AVEC DOISNEAU

por Maria Rita Angeiras





Minha casa agora tem uma vista para Paris. Do sofá consigo ver um museu antigo, que desconheço a origem, um velhinho sentado na praça com um cachorrinho simpático e a boa e velha Torre Eiffel. Às vezes me transporto lá pra dentro e finjo agüentar o frio e me seguro pra não escorregar na neve. Nessa hora Robert segura o meu braço e tenho certeza de que ele devia ser um cara bem mais interessante do que todos que tenho conhecido. Alguém com aquele olhar e aquela percepção não olharia para a primeira bunda que passasse ao lado. E se olhasse, eu nem me incomodaria, pois a tal bunda deveria ser fenomenal mesmo para merecer a atenção dele. Passeando pelas ruas, naquele frio estarrecedor, começo a rezar para aparecer alguma cafeteria. “Um macchiato e... Robert, o que você vai querer?”. Sentamos numa mesinha aconchegante bem próxima à janela. O vidro está gelado, então evito encostar para não esfriar o resto do corpo em poucos segundos. O tom amarelado das lâmpadas e o clima intimista começam a sobrepor o tom preto e branco das cenas anteriores. Robert pede um Marlboro Red, com seu francês preguiçoso, e vai até a porta. Do canto posso ver a fumaça do frio misturada à fumaça dos cigarros. A cena daria uma boa fotografia, imagino. Meus dedos começam a congelar, então encosto-os junto à xícara, que tem um charme antigo, e começo a imaginar quantos outros dedos já se esquentaram ali. Robert entra e começa a me contar histórias interessantes, todas devidamente visualizadas em preto e branco. Enquanto ele fala, eu observo as pessoas em volta, como se fossem personagens vivos, acompanhados de um cheiro incrível de croissant quentinho. Algumas horas depois, deixamos o café, e voltamos a nos arriscar na neve. Eu me despeço de Robert, subo para o meu apartamento pequeno e charmoso e deito no sofá. Mas Paris continua ali, ao alcance da minha parede.

2 comentários:

Anônimo disse...

Breve compartilharei essa visão com você.
Pode estar frio... Não incomoda! É um bom motivo para uma raclette e baguette francesa.
Concessão para o vinho: português.
o que acha?
bj,Lóri

M disse...

q lindo