domingo, 26 de abril de 2009

EU NÃO VOLTAREI AO VALE DO CATIMBAU

por Rafael Moreno


Eu não voltarei ao Vale do Catimbau. Não verei suas pinturas rupestres, me cansarei em suas trilhas ou sentarei em suas pedras, mirando o horizonte com sua neblina cor de cinza, com o laranja do seu pôr-do-sol. Eu não voltarei ao Vale do Catimbau e por isso não molharei outra vez o rosto na fonte de Antonio Leite e nem escutarei, atento e curioso, que ali fizeram uma tocaia para ver se ele tinha mesmo o corpo fechado. Também não protegerei Cecília dos bodes com seus sinos, segurarei sua mão nos piores trechos ou esperarei vinte horas por suas intermináveis fotos de duzentos cliques. Palavra que não mais tentarei inventar figuras nas pedras, que são nuvens eternas, ou me sentarei na caverna do Paraíso Selvagem, de frente para o penhasco laranja que o pôr-do-sol pintou do vermelho mais vivo que já existiu e de lá, do alto da caverna, não subirei no morro e farei o melhor xixi da história, com o Vale inteiro de paisagem. Eu não me unirei a Igor na maldade de juntar duas formigas gigantes, que se comem, não abrirei os braços no alto do Ibreu, nem cantarei Luiz Gonzaga no meio da trilha do Camelo. Não vou rir quando Carol cair na água fria por causa de uma lagartixa e de um susto. Ao Vale do Catimbau não voltarei. Não se Eneas não for o nosso guia. Eneas com seu riso fácil, com sua amizade fácil, acessível, seu grande conhecimento da região, das pessoas da região, dos causos da região. E se Eneas não aceitar a nossa cerveja é que não voltarei mesmo, porque vai ser na cerveja que ele vai nos apresentar a José Bezerra e sem José Bezerra, com suas santas, suas esculturas e seus sambas de côco, o Vale do Catimbau não será o mesmo. E o amigo Zé Bezerra vai ter que me emprestar o pandeiro novamente, porque foi com ele tocando em minhas mãos, juntamente com o tambor de Farias e com as vozes de todos do Vale, incluindo seus antepassados, meu Rei e até Antonio Leite, que aconteceu uma das noites mais inesquecíveis, inesperadas e fantásticas das nossas vidas, de todos que estavam por lá, imagino. Por isso não voltarei ao Vale do Catimbau. Não voltarei se Minha Princesa, ilustre filha de Meu Rei, também não tiver esperado seis anos para voltar à sua casa, seu palácio, naquele mesmo dia. Não voltarei se ela não fizer o mesmo discurso, quase molhando os rostos de lágrimas, o dela e os nossos. Não voltarei se Dona Carminha e Dona Helena não fizerem aquela sopa, aquela galinha caipira, aquele suco de goiaba, aquela torrada, a feijoada de Carol. E a mesma Dona Carminha teria que molhar os olhos ao se despedir, para eu poder voltar ao Vale do Catimbau. Não, lá eu não piso mais, nem danço mais ao redor da fogueira, nem canto com a rainha do bolero, Dona Neivia. Não canto sambas com Farias ou Marlene. Não vou rir de Ismael levantando os braços e pulando curto uns passos de balé, seguidos por todos do Vale, por todas as pessoas da fogueira, como numa ciranda de improviso, como se não houvesse platéia. Não voltarei sem os mandamentos de Manuela, tão bonitos que silenciaram a gente. Não voltarei sem as crianças da vila, enchendo as bolas e fazendo elas secarem depois, para encher de novo numa brincadeira sem fim. Não voltarei se as mesmas crianças não gostarem tanto de tirar fotos. De maneira alguma eu voltarei, se Dona Nenê não continuar com a mesma simplicidade e a sinceridade fácil que pensei só existir nas crianças, de dizer que gosta de alguém de graça, de levar pinhas para o nosso lanche. Nunca voltarei se Farias não continuar o mesmo, com tantas histórias, mímicas, tanta coisa para contar e tanto amor pela sua terra, por seus amigos, por sua sogra, sua irmã, por Ismael, sendo, sem saber, Rei, e não Príncipe, do lugar. Eu não voltarei se o nosso guia não ficar doidão, tropeçando no mato, fazendo trilha de madrugada para curar a cachaça ou se não queimarem a cerca do galinheiro para o fogo continuar ardendo. Acima de tudo, eu não voltarei se a lua não ficar diferente, com um enorme círculo ao seu redor, passando para nós - até para nós, céticos, até para nós, ateus - a incrível sensação de que estamos mesmo em um lugar diferente, que estamos mesmo sendo abençoados, que estamos mesmo fora do mundo, que estamos mesmo com uma coisa dentro da gente e que só indo lá dentro para saber tudo o que aconteceu de mágico, de fantástico, de bonito naquele lugar. Eu não voltarei se tudo não for igual.

11 comentários:

Grego disse...

Que inveja da porra pq eu não fui com vocês...

Abraço

Anônimo disse...

De tudo o que foi relatado, o que mais provocou inveja foi o xixi com o vale de paisagem...Esse xixi seria ainda melhor se tivesse como música ambiente Gonzaga cantando "Luar do Sertão".

Anônimo disse...

De tudo o que foi relatado, o que causou mais inveja foi o xixi tendo todo o vale como paisagem..Melhor seria se tivesse como música de fundo a bela canção "Luar do Sertão" interpretada pelo Velho Lua Gonzaga..Aí o prazer do xixi seria completo.

Saudações Nordestinas,

Artur Moreno

Cris disse...

Mora, sei que já disse.. mas, mt emocionante mesmo! compartilho a mesma inveja de grego..

Beijo

Unknown disse...

Mora vou repetir: o texto esta perfeito, melhor ainda depois de ter visto as fotos, pois parece que a gente entra no texto, de tanto detalhe.
Compartilho a vontade com Cris e Grego.

Tu me enche de orgulho.

Beijo

C. disse...

porra, tá muito lindo!
tbm tive invejinha do xixi. e das comidas tbm =X
=*

Lu Vieira disse...

Rafael, gostaria de saber qual Vale do Catimbau você fala ou ver as fotos, pra ter certeza se é o mesmo vale que conheço lindamente.

um dos três disse...

olá, Flor de Angico =)

falo do vale do catimbau do agreste pernambuco, perto de buíque e arcoverde.

tem umas fotos no flickr de cecília, a dos duzentos cliques do texto: www.flickr.com/photos/cdafonte

depois me conta se é esse mesmo que tu conhece.

abraço,
Rafael.

Edízia Lessa disse...

Arcoverde? Será que é por isso que lembrei do Cordel do Fogo Encantado? Havia comentado ontem, perdeu-se o comentário extraviado pelo além, enfim.. Perdeu o sentido, mas havia perguntado justamente onde era o Vale do Catimbau. E, havia comentado com o Exodus que o xixi básico (e anti ecológico - com hífen ou sem hífen pq nesta altura eu também não sei onde está wally) estava mais pra 'paulera' do Lirinha e Cia do que pro Forró do Gonzaga.. Enfim, perdeu-se.. (Praga do Eneas? Guia.. Caminho.. Não se perder as coisas.. Ok, praga do Eneas!)

Anônimo disse...

Viagem boa, hein?

Abração.

Thiago (o pai da ovelha).

Cecília disse...

esse texto só não é melhor que ter vivido isso.

mas é quase.

lindo,rafa.

um beijo.