segunda-feira, 2 de março de 2009

NA CONTRAMÃO

por Maria Rita Angeiras


Descobri recentemente que dizer “sim” dá muito mais trabalho do que dizer “não”. E passei a dizer “não” com mais freqüência. Para dizer a verdade, eu ando tão sem urgência que agora digo “não” 99% do tempo. Um “não” que não significa necessariamente rejeição. Está mais para “não, agora que meu corpo tranqüilizou não quero voltar a comer chocolate enquanto espero você telefonar” ou “não, minha vida está tão em paz que prefiro aproveitar essa sensação e deixar todo o resto para depois” ou “não, desculpa, para bagunçar a minha cabeça já tenho eu mesma”. Parece fuga? E é. Mas é uma fuga completamente opcional e assumida - o que me faz parecer uma mulher super moderna e coerente. E prefiro fazer isso do que ter que escolher a outra opção, mais radical, que é doar meu coração saudável, mas extremamente cansado, para algum paciente da fila de transplante. Em compensação, tento alimentar os meus dias com pedacinhos de amores-perfeitos encontrados em cantores de jazz, filmes de Woody Allen e poemas de e. e. cummings. E vou acumulando toda essa poesia distraída para um dia gastar com alguém que realmente que vá fazer bom uso dela. Não me preocupo, pelo contrário. Quem sabe da próxima vez que o cara certo passar por mim eu não vou estar ocupada demais com os caras errados. E são tantos. E estão por toda parte, como praga: nos bares, nas festas de amigos, nas baladas, nos restaurantes, no estacionamento, no elevador, enfim, a lista é longa. Cansei desses lugares, das conversas vazias, de pessoas gritando no seu ouvido, de opiniões desinteressantes, dos joguinhos sem graça, das abordagens, das roupas com cheiro de cigarro e das pessoas destilando álcool. Vou com o simples objetivo de rir, dançar e me divertir. Todo o resto é exatamente isso: resto. E agora sempre vou embora um pouco antes, para não correr o risco de me juntar a ele. Pode ser uma fase xiita, eu sei, mas comecei o ano colocando muita fé num conselho que eu adaptei: “amazing things happen when you say NO”.

4 comentários:

Anônimo disse...

fera

Anônimo disse...

Maria Rita, você não me conhece, mas adoro muito os seus textos. Sempre venho aqui, meio quietinha, observar tua arte com as palavras. Você é incrível e acabei virando tua fã. Deixa eu me apresentar: sou amiga de Rafa e trabalhei com ele na campanha em Maceió. :)

um dos três disse...

poxa, viviane, que bom saber que você se diverte com esses meus desencontros. e se é amiga de rafa, então tá em casa, né?

brigada!
beijo

ritinha

Anônimo disse...

Primeiro um "quem sou eu?".
A seguir um "eu sou eu?",
ou seja, "sou eu real, viva, autônoma e coerente, ou apenas um reflexo, em outras palavras, nada de mais que uma ilusão sobre a qual[terei] sempre poder absoluto?".

Amo essas descobertas e amo você, Ritinha.