quarta-feira, 4 de março de 2009

SE UM DIA

por Rafael Moreno



Era um teatro e estávamos todos sentados em confortáveis poltronas reclináveis, com uma vista privilegiada do palco onde ele sentava com seus onze, devo dizer que eram onze, músicos e amigos. Estávamos todos sentados confortáveis vendo Paulinho da Viola iniciar um concerto com os simples versos que o fizeram conquistar mais respeito do que fama, mais prestígio que dinheiro. Os cabelos brancos não emprestam a ele o tom de avô, mas sim o de um tio que tudo sabe da música e da vida e que, feliz e paciente, espalha esse conhecimento para o grupo de sobrinhos e amigos dos sobrinhos que se reúnem embaixo da cadeira de balanço, sentados de pernas cruzadas no chão, na varanda de uma casa três degraus acima do piso. E esse tio começa sem violão, as mãos apoiadas no joelho, cantando Coração Leviano juntamente com todo o público que levanta as mãos e canta de olhos fechados, braços para o alto, olhos fechados e atentos, grudados no palco. Era um teatro, não era carnaval de Olinda. Paulinho transformou em teatro o carnaval de Olinda.

Entre uma música e outra surgem gritos, mãos na boca, que atiram beijos, mãos para cima, palmas, palmas para cima!, pedidos de clássicos, viva a portela, elogios e mais pedidos, atirados em Paulinho. Paulinho pega o cavaquinho, desconfio que nunca teve uma viola, e responde às palmas, aos gritos, às mãos esticadas, aos choros com um olhar para a banda, um toque nas cordas de aço e os versos de Ame, seja como for, sem medo de sofrer, pintou desilusão não tenha medo não, o tempo poderá lhe dizer que tudo traz alguma dor e o bem de revelar que tal felicidade, sempre tão fugaz, a gente tem que conquistar. A voz da público é maior que a dele. Mais forte. Mais alta. Não se escuta Paulinho e estamos em um ambiente aberto. Não se escuta Paulinho mesmo com as mil caixas de som colocadas ao seu lado. Não existe pandeiro, bateria, tamborim. Não existe piano. Não existe violão. Paulinho canta em playback e fecha os olhos, agradecendo ao público do teatro. Fecha os olhos e sorri, admirando o efeito que tem a sua música, sorri timidamente, sinceramente feliz, recebendo a música que vem da platéia e bate em seu corpo, silenciando, emudecendo a sua banda.

Paulinho fala como se estivesse numa roda com cinco amigos - seus sobrinhos. Explica a origem de cada canção. Cita os compositores. É mais fã que ídolo. Mil vezes mais fã que ídolo. Todas as músicas que canta parecem ser uma homenagem aos seus parceiros, como se ele não tivesse letrado ou musicado cada uma delas. Escutamos atentos. Nesses momentos as palmas param, as mãos descem, os pedidos calam, os beijos ficam guardados, os namorados encostam os ombros. Escutamos atentos as histórias de Paulinho, confortáveis dentro de nossas poltronas. Escutamos. Em seguida vem Paulinho com outras músicas até que canta Foi um rio que passou em minha vida e eu sinto muito não poder escrever sobre isso.

11 comentários:

Anônimo disse...

minha primeira reação ao texto: "que vergonha, mal conheço paulinho da viola."

minha segunda reação ao texto: "eu bem queria conhecer paulinho da viola."

minha terceira e última reação ao texto: arrepio.

nem conheço, mas bem que eu queria estar entre os amigos dos sobrinhos, sentada nessa poltrona, em frente a esse teatro de varanda, 3 degraus acima do chão.

texto impecável, como sempre rafa.

Thiago Freire disse...

Queria muito ter ido ao show, mas não deu. Confesso que fiquei um pouco menos frustrado ao ler este texto (ou mais afim ainda).

Parabéns, Moreno. Muito bom.

Anônimo disse...

O que mais me chamou atenção nele, além da forma como chegou - manso e em sua mais humilde elegância - foi conseguir arrancar não apenas as letras decoradas daquele mar de gente, mas toda a carga de sentimento que essas estavam envolvidas. Senti que estávamos todos querendo estar exatamente ali,no prazer em sentir aquela doce e pesada voz.Foi lindo..

Muito bom texto.

Anônimo disse...

simplesmente parabéns! esse meu irmão, me enche de orgulho cada dia mais!

Unknown disse...

Lindo, lindo!
Me senti presente em tal evento

Edízia Lessa disse...

Este é o encanto do carnaval pernambucano, muito bem descrito. Fosse em Natal, diria: "cheguei a ver as cortinas encarnadas do TAM!".

Babi disse...

Coisa mais linda de Babiiiii!
=)

cheiro.

Anônimo disse...

Esse é o meu irmão..herdou num sei de quem o dom de escrever. E eu, que nem sei que dom herdei.

Parabéns

Artur Moreno

Anônimo disse...

ai tu faz esse texto incrível, digno de fazer até leigo em samba colocar "paulinho da viola download" no google, pra na última frase deixar seus leitores na vontade de um outro post que contrariasse o "sinto muito não poder escrever". e ainda deixa a gente intrigado com esse danado de rio...
=P

bju!
nathaliaqueiroz

flavia disse...

eu sinto ainda mais não ter estado lá... e o meu coração sempre se deixa levar.

Mariana disse...

Teu coração tem mania de amor
E amor não é fácil de achar

Ame escrever, rafa, sempre, seja como for!

Todos se deixam levar pelos seus textos!

um beijo grande

piu