quarta-feira, 11 de março de 2009

QUANDO

por andré muhle

Quando eu for velhinho, mas bem velhinho mesmo, quero ter sempre um pente amarelo num bolso e um lenço vermelho no outro. Quero ter também uma bengala preta com cabo de marfim e, se a saúde permitir, quero fumar um cachimbo grande igualzinho ao do Sherlock Holmes. Quero ser o primeiro casal a se levantar pra dançar, mesmo que leve uma música inteira para chegar no meio do salão. E ainda que não tenha mais a desenvoltura de antigamente, quero abraçar minha senhora com a força que ainda me resta nos braços e fitar seus olhos foscos como quem pergunta saudosamente “lembra?”. Quero estar preparado para o dia em que meus netos sentirão vergonha de mim e perguntarão aos seus pais “Por que o vovô tem cheiro de livro velho?”. Nesse mesmo dia, os mais jovens me olharão com repúdio e me condenarão pelo meu estado decrépito e infeliz. Mas até lá eu já estarei preparado. E assim como Penélope esperou 20 anos para Ulisses voltar de sua Odisséia, eu também esperarei. Até que um dia, todo esse ódio tenha se transformado em admiração. Quero ter vontade de chorar toda vez que ouvir “Perfídia” e nas minhas conversas, sempre que possível, tentarei encaixar um “no meu tempo”. Mesmo sabendo que isso fará de mim uma pessoa chata e ultrapassada. Quero achar um absurdo meus netos chegarem em casa às seis da manhã. E quero também ter uma cadeira de balanço no quintal de casa para que todas as terças-feiras eu possa sentar lá e tocar minha gaita bem baixinho, como um poeta que escreve um poema para si mesmo. Quero contar pros meus netos que no meu tempo “ideia” tinha acento e que o Big Mac ainda vinha com picles e gergelim. Quero acordar cedo pra comprar o jornal e buscar o pão quentinho na padaria, cumprimentando todos os porteiros que encontrar pelo caminho. Nas sextas-feiras, quero convidar minha senhora para o cinema. E lá na primeira fila, no meio de uma cena qualquer, eu vou encostar meu mindinho no mindinho dela até que todos os nossos dedos tenham se cruzados. E enquanto ela estiver jurando que aquilo não passa de um gesto mecânico e involuntário, eu estarei lembrando daquela noite na praia, 50 anos atrás, quando ela me perguntou com cara de criança pedindo esmola: “A gente vai ficar junto pra sempre, não vai?”. Quando eu for velhinho, mas bem velhinho mesmo, quero ter sempre um pente amarelo num bolso, um lenço vermelho no outro e uma saudade enorme no coração.

13 comentários:

Edízia Lessa disse...

Neste querer, já existe uma sabedoria inacreditável e uma sensibilidade de poucos. Ah.. Danado tu me fizeste chorar! (Pô Cris! Faz bem feito, mas nem tanto né? Rs..)

Unknown disse...

Muito bonito mesmo. Emocionante.
Parabéns!

Anônimo disse...

Já estavam sentindo falta dos textos do André!!!

Quando eu for velhinha, mas bem velhinha mesmo, quero ter um vestido de bolinha, um conjunto de perola, o cabelo da cor das nuvens... e todas essas coisas lindas que você escreveu também!!!

Parabéns!!!
Vocês realmente sabem demais.
;D

julisboa disse...

vige. chorei.

Anônimo disse...

Vou colar meu e-mail de ontem na íntegra, então:

"tu tem 29. daqui a 30 anos tu vai ter 59. aos 59, as pessoas não têm cheiro de livro velho nem olhos foscos.
se tu postar isso hoje, vai chover "senhoras" com os mesmos sonhos que tu. aí tu dá uma de difícil e deixa pra pegar ela daqui a uns 20 anos. tá bom?
hahahaha
perfeito, como sempre. e você vai ser o vovô mais fofo do azilo. não tenho dúvida.
:)"

não tenho mesmo.

(e sobre as "senhoras" de mesmo sonho, tá vendo que eu tava certa?)

Da próxima vez, vê se me avisa mais cedo, pra eu comentar antes de receber mensagem no celular.
;)

Beijo.

Alice In Town disse...

fiquei saudosa mesmo sem sentir a saudade do que ainda sentirei.

Anônimo disse...

esse galego é danado mesmo...
beijo,
Cassis

Natalie Dowsley disse...

Lindo!!! Só não vou dizer que quero ser uma velhinha assim tb, daqui a alguns anos, pra não brincarem dizendo: "tá vendo!!! sabia que iam aparecer 'senhoras' interessadas!" kkkkk!!!!
Brincadeira!
Adorei mesmo. Muito bonito.
Conhece os textos de Rita Apoena? Ela fala muito sobre a avó dela, D. Epifania... com uma sabedoria incrível.
Abraço! =)

Bel Andrade Lima disse...

massa~
beijo
bel

Anônimo disse...

E quando eu estiver velhinha, bem velhinha, mesmo com cheiro de livro velho, quero continuar a fazer planos, decidida a colocá-los em prática, mesmo q esses planos nunca saiam do papel. Ah, e quero ter ao lado um velhinho, bem velhinho. para me dizer que tudo isso vai dar certo...
E não me venha com "tá vendo!!! sabia que iam aparecer 'senhoras' interessadas!" kkkkk!!!!
Hahahahahhahahahha

Myllena Valença disse...

Sorte de sua senhora. Sorte dos seus netinhos. Mas antes desse tempo chegar, ensine-os a gostar do cheirinho de livro velho, assim, a sorte também será sua!

Anônimo disse...

Conheci o blog apenas hj, li o primeiro texto e foi me dando uma fome de outros...e fui lendo e lendo... e me deparo com essa "maravilhosidade". Amei!
Sou de Recife tb e como toda boa e velha moradora da zona norte faço caminhadas na jaqueira, sempre a noite, porém, hj, por um milagre, acordei as 5 da manhã e resolvi caminhar... e lá encontro um senhor de uns 70 e poucos anos caminhando apressado e na direção contraria a todos, gritando: - Bom dia gente! Bom dia! não deixem o bom dia morrer... deseje um bom dia ao próximo...
Bom, qdo eu for velhinha, bem velhinha, além do cheiro de livro velho, quero ter uma alegria tão contagiante qto a daquele sr. feliz do Parque da Jaqueira.
Adorei o blog e com certeza voltarei mais vezes. Bjos
Katyane

Paula Duarte disse...

vixeeeeeeeeeeeeeeeeeeee....q lindo...!=) amei!=)