segunda-feira, 19 de novembro de 2007

BATATINHA

por Rafael Moreno



A gaiola estava aberta. De longe, o menino espiava. De longe. A gaiola aberta e Batatinha sem perceber. Pulando, como sempre. Quanto tempo suas asas não batiam. Quanto tempo. O menino espiava. De longe. Segurava o choro. Boca apertada. No gramado muito verde da casa da praia, só os dois. Ele, escondido. Perdido. Dividido entre a liberdade da patativa e o carinho que sentia por ela. Voa, Batatinha. Fica, Batatinha. Voa. Batatinha pulando. As asas sem bater. O menino escondido, espiando a gaiola aberta. Batatinha pulando mais. Sem pressa. Sem saber que o menino estava ali e que a gaiola estava aberta. Voa, Batatinha. Ela descobriu a saída, finalmente. Pulou até lá. Subiu na portinhola. O mundo aberto e batatinha parada na portinhola. Voa, Batatinha. Voa. Volta, Batatinha. Volta, voa. Batatinha em cima da portinhola, espiando o mundo que o menino oferecia sem palitos de madeira. Olhando para os lados. Para cima. Para todo canto. Não voa. Não voa. Voou. Bateu as asas, sem jeito. Voou devagar: voou. A garganta do menino era um nó. A boca tremia. Nem viu Batatinha subir na árvore, ou ir para bem longe, ou. Não viu. Alcançou correndo o quarto dos pais. O menino novamente escondido. Debaixo da cama, dessa vez. Foi melhor para ela. Eu sei. Está livre, vai encontrar a família. Eu sei. Reencontrar os amigos, poder cantar em cima de uma árvore. Eu sei. O que você fez foi muito bonito, Rafa. Sabe de uma coisa, aposto que Batatinha vem te visitar de vez em quando. Jura? Tenho certeza.

Um comentário:

Anônimo disse...

Metafórica e de intensa ternura...
Muito boa a sensação de a ler.
Também pudera, liberdade é um negócio complicado.
Relembro Clarice: "eu e minha liberdade, que não sei usar".
Abraço carinhoso,
Lóri