por Rafael Moreno
Minha relação com buenos aires é mais ou menos como era a sua com um ex de muito tempo. Tinham as épocas boas, quando estavam se acertando e agora vai, mas no geral era muita briga. Beijo romantico e apaixonado só na hora do vamo ver. Depois da época da paixão avalassadora, comecei a ter raiva de umas coisinhas daqui. O principal e a base de todas as complicações é que a cidade parou no último tango de gardel.
Minha versão nesse divã começa com um exemplo: o elevador do meu prédio é da época em que existia razão para se ter medo de elevador. Acho que primeiro construiram ele e vinte anos depois o edifício. É daqueles com porta corrediça. Abre uma. Abre outra. Fecha a primeira. Fecha a segunda. Aperta o botão. Chega no andar. Abre uma. Abre outra. Fecha a primeira. Fecha a segunda. Agradece ao escritor porque acabaram esses pontos repetitivos.
Nessa cidade linda os cachorros cagam em todo canto. Não consigo entender como um dono sai com seu cachorro, vê ele cagar em frente a um supermercado, a uma locadora ou casa de família e não faz nada. Aliás, nem se dá conta de que está comentendo uma tremenda falta de educação. Para ele isso é tão normal quanto comer carne na hora do almoço. É um museu. Basta olhar para a arquitetura. Até prédios de cinco anos de vida possuem a estética dos 80. Vivem tanto no passado que o que não falta é feira de antiguidades. Em todo canto se vende uma vitrola, uns pratos antigos, relógios da época de ouro da galera daqui.
Mas é como falei, são fases. Aprendi a amar esse país como uma namorada que aceita os peidos do namorado sem reclamar. Apenas abana levemente o ar com a mão direita e dá um tapinha no ombro do amado com a esquerda. É uma cidade linda. Tem estações de ano. Tem ruas limpas. Muitas árvores. Parques da Jaqueira em todos os bairros, com gente lendo, escutando música, jogando futebol, tomando mate, fumando, brincando com os filhos na grama. É bonito.
Pena que pararam no tempo: os ônibus são mais velhos que minhas camisas pretas da hering. O metrô é meio antigo, meio novo. Depende do vagão. Sempre cheio. Os supermercados também não cresceram tanto. É como se todos fossem esses de praia. Nunca vi tanto carro velho na rua. Fiat 147 é bóia. As caixas registradoras são de ferro. As bicicletas nem marcha têm.
A galera usa mullets.
Um comentário:
hahahahahahaha mooora, essa textinho ficou imoral! hahahaha adorei o fim "a galera usa mullets." nada mais real do que essa tua descrição. amei! amei!
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