por Maria Rita Angeiras
The Beach Boys cantam “California Girls” e relembram a surf music da década de 60, o cappuccino fica pronto depois de exatos 1’70’’ no microondas e um alarme sinaliza o ponto exato entre degustar e queimar a língua. O sol adentra invasivamente a janela interrompendo a friaca gostosa dos últimos dias e a televisão não pede licença para exibir tanta porcaria junta de uma só vez, mesmo quando você tem 60 canais à disposição.
É quando se está só que se percebe todas essas pequenas coisas. Agora, The Beach Boys cantam “Wouldn’t it be nice” e eu penso em várias coisas que poderiam ser bem melhores do que estar em casa sozinha, do que compartilhar o meu eu interior, exterior e todos os fenômenos que acompanham o auto-conhecimento pregado por Schopenhauer. Para o filósofo, a solidão é um elemento benéfico para que as pessoas possam se desprender das futilidades da vida, que, na visão dele, são simples elementos de fuga para o vazio que ocasionalmente sentimos por dentro. Soa um pouco eremita? E é. Ainda não entendeu? Seria algo como “enquanto os outros compram roupas eu leio um livro” ou “enquanto os outros bebem no bar da esquina eu medito” ou “enquanto os outros compartilham os amigos eu abuso de um enorme sentimento insular” ou, ainda, “enquanto os outros conversam eu faço perguntas para mim mesma e – pior – espero alguma resposta plausível”. Para Schopenhauer, praticar a solidão é uma excelente oportunidade pra praticar o auto-conhecimento e uma forma de exercitar a auto-suficiência do indivíduo perante as tentações de fuga psicológica que a vida oferece.
Agora The Doors cantam “Love me two times”, mesmo que na minha cabeça só venha o quase-jingle “hello, i love you, won’t you tell me your name” de outra música deles. Mas, enfim, auto-conhecimento. Tudo que não puder ser enquadrado dentro desse grupo, é porcaria para o cérebro, junk food para pássaros e ecstasy para bichos-preguiça. Nesse momento eu peço um minuto para o tocador de mp3, que insiste em começar a música Psyche, do grupo francês Nouvelle Vague, no momento em que eu releio essas frases burras e perdidas.
Pause. Reli. Certo, a crônica está cheia de redundâncias como “eu interior” ou “eu exterior”, mas o importante é frisar ao máximo a loucura a que se pode chegar num estado eremita. Não vou colocar a culpa dos meus 220 volts no café ou negar o fato de que, comigo, conversas muito simples podem ser difíceis de traduzir assim como é muito difícil entender como Madonna consegue ter aquele corpo depois dos 40.
Estou sozinha, de bobeira numa cidade onde o tempo é que decide o que você fazer num sábado à tarde. E, por mais que Schopenhauer pudesse me criticar por vários e longos aforismos filosóficos, a coisa que eu mais quero neste instante é tirar férias de mim mesma e curtir a delícia que é ser alienada, muito alienada.
Um comentário:
Rita,
não se esqueça que "as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são; metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível; moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas" (NIETZSCHE).
Gosto dessa desconstrução porque nos revela a instabilidade dos sentidos que atribuimos ao real.
bj
Lóri
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