quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

ENTERRARAM EVITA E NÃO ME DISSERAM ONDE

por Rafael Moreno




A primeira sensação que tive quando pisei no Cementerio de la Recoleta – sim, estou falando do Cemitério de Evita - foi que uns paralelepípedos soltos faziam um barulhinho engraçado quando se pisava em cima, cloc, cloc, como se fossem ossos guardados dentro um saco. A segunda foi a de que um Moreno nunca será enterrado ali. Primeiro porque a gente tem muito mais orgulho de ser enterrado no solo da saudosa Várzea Alegre. Ou, pelo menos, orgulho de falar da vontade de ser enterrado lá. Segundo porque, acredito, só dorme o sono dos justos naquele sítio quem for importante demais. Ou tiver dinheiro demais. E cá entre nós, isso acaba dando no mesmo. Acho até que a galera deve chorar um pouco mais na hora do enterro, pensando na percentagem da herança que foi parar naquela cova.


Sarcófagos imensos. Bem trabalhados. Bem acabados. Imponentes. Bonitos mesmo. É como se tivesse um imperador em cada cova. Boa parte deles da época do Barroco ou Rococó. Aposto. As árvores são pinheiros e estão em toda parte. Seguindo o caminho principal, como as palmeiras de Santo Amaro, e espalhadas no restante da casa dos mortos. O piso é de paralelepípedo, como você leu logo no comecinho, acho que rosa com cinza. O mais curioso é que não se vê tanta gente chorando ou carregando flores. Quase todos são turistas que tiram fotos com os cavaleiros de metal, as estátuas, as fontes e, claro, com a tumba de Evita Perón. Bueno, quando eu disse que “quase” todos eram turistas, estava me referindo ao fato de eu ser mais um procurando pela ex-primeira dama e meio perdido como costumo estar. Como não a encontrava, tentei a tática de ir aonde tivesse mais gente e lá ao longe tinha um grupo mais ou menos grande. Cheguei lá jurando que ia ver a tumba da mulher e o que vi foi um caixão, com gente chorando ao redor. Chorando muito com as mãos no rosto, entre abraços apertados, os narizes vermelhos. E eu ali, bem no meio, pedindo permiso pra poder passar e fazendo o possível para não morrer de vergonha. Até porque, se isso acontecesse, eu não poderia ser enterrado ali.

3 comentários:

Babi disse...

E eu ali, bem no meio, pedindo permiso pra poder passar e fazendo o possível para não morrer de vergonha.

Fiquei rindo sozinha na frente do computador visualizando essa cena...

=)
beijo!
Babi

Anônimo disse...

amarradinho pra caralho, hein, magreza?

do caralho.

Thiago.

Danilo Portela disse...

Eu estive lá. E logo na entrada me deparei com o túmulo de Manoel Portela. Tenho até uma foto ao lado dele pra provar. Acho que isso me credencia a ser enterrado lá também, né não? Desculpa aí, Rafa.

Danilo Portela