quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

TERCEIRA PESSOA DE SI MESMA

por Maria Rita Angeiras





A menina acordou naquele final de semana frio com uma preguiça tão grande. Não queria largar o edredom roxo que abraçava. Ou ele não queria largar ela. Nem sabia dizer, de tão próximos que estavam. Só levantaria se fosse pra tomar o leite com chocolate. Alguns riam dessa fase esquisita da sua alimentação. De uma hora pra outra passou a ter vontade de comer apenas coisas de criança, como danoninho, papinha, leite e suquinho. Era tão esquisito quanto aquela mania de escrever sobre si na terceira pessoa. Parecia uma necessidade de se descolar, talvez numa tentativa de ter algum distanciamento, de ser imparcial. Totalmente em vão. O ano tinha começado tão lento. Seu corpo estava cansado. Tinha acumulado algumas enxaquecas, bronquites e tendinites no final de 2008, que tentou fazer o mar levar no último dia do ano. Leva mar, leva. Estava com saudades de casa. Entupiu o DVD com temporadas de seriados viajados demais e filmes longos demais para entreter a cabeça. Tinha mania de dormir balançando a perna, que ela tentava justificar dizendo que era coisa de criança, do berço, para se ninar. Dormir nunca foi problema, mas tinha que balançar a perna. Ultimamente andava sonhando muito. E quando acordava sentia um peso como se tivesse vivido intensamente as últimas 8 horas de sono. E dormia o dia todo para viver no sonho já que a cidade estava tão vazia. Olhava para os livros na estante e sentia falta de ler. Mas também não tinha vontade de comer, coisa tão mais essencial, então se perdoava. Os chocolates se amontoavam nas malas, na cozinha, mas tinham perdido a graça. Do que ia começar a gostar se não gostava mais de chocolate? Pela primeira vez na vida se obrigava a comer algo para não ficar doente. Comer tinha ficado chato. E o vizinho reclamava que ela dava passos com muito força. Ai, que chato. Ultimamente andava dentro da sua própria casa na ponta do pés ou de chinelinho. Pensou em ir no supermercado comprar uma vida pro vizinho. Mas a menina tinha uma felicidade tão calma que poderia dividir, colocar debaixo da porta dele e ver se ele parava de reclamar. Ouvia a mesma música incessantemente. Era estranho 2009 começar sem insolação, malas gigantes e cansaço homérico. Cansaço tinha, mas era de pensar e de viver no sonho. Lembrou do sorriso honesto da sobrinha, que desmontava qualquer pessoa e enchia os dias de puríssima e levíssima alegria, como as músicas de Cole Porter. Achou um guardanapo na bolsa, onde tinha escrito alguns pensamentos bobos. Tentou escrever mais, até que se lembrou da sua mãe:


- Pára de se alimentar de letra, menina. Vai comer.

2 comentários:

Anônimo disse...

a sobrinha é linda, a mãe maravilhosa e a menina que fala de si mesmo na terceira pessoa é especial de um jeito que minha simplicidade não é capaz de descrever.
amo muito!
Dida.

Anônimo disse...

Só uma "felicidade tão calma" para aturar um vizinho sem vida própria.
Te amo.
Lori