sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

VOCÊ E OS NÃO-VOCÊ

por Maria Rita Angeiras


Toda vez que a menina saía na rua, os outros homens desejavam ser você. E imaginavam quem teria causado um estrago tão grande a ponto dela sair de casa assim, o olhar perdido, desleixada, de camiseta branca, o cabelo bagunçado preso num coque alto e as mãos escondidas no bolso da calça jeans, como se não soubesse exatamente o que fazer com elas. Os outros homens te detestavam e te idolatravam. Ela não te odiava porque não tinha espaço. Você já tinha ocupado todos os cantinhos com sua voz mansa e suas promessas que ela não compraria se não fosse a sua maldita voz mansa, calma, linda e irresistível. Droga, como ela sentia saudades de te ver. Nas segundas, nas terças, nas quartas, nas quintas, nas sextas, nos sábados e, principalmente, nos domingos ocos. E em cada dia parecia caber uma semana inteira, de tanto que demorava a passar. Droga, ela sabia que você não merecia. E saía para conhecer dezenas de pessoas diferentes, mesmo que às vezes se pegasse encarando a porta, esperando você entrar pra salvá-la de todas aquelas tentativas estúpidas de te substituir. Mas quando você entrava, partia seu coração em duzentos mil pedacinhos minúsculos e jogava pra cima como se fosse confete no meio do seu carnaval particular. Droga, como aquilo doía. E odiava a pequena metadezinha que separava para todos os outros homens, que ela chamava carinhosamente de os não-você. E achava tão futura a idéia de de que um dia você iria desocupar tudo aquilo naturalmente. E quando isso aconteceu, o não-você deixou um buraco tão grande que eu até perdi a vontade de comer. E nenhum dos outros homens sequer conseguiu bagunçar o meu cabelo. E eu não tenho a menor vontade de reencontrar nenhum deles. E eu daria tudo pra voltar a te amar, mesmo que você não me amasse de volta, porque só assim os meus dias teriam algum sentido de novo e eu não seria esse grande vazio que nunca mais gostou de ninguém, pensou em ninguém, se interessou por ninguém. E todos os homens da minha rua iriam parar de fazer coisas bobas como ler o jornal ou passear com o cachorro só pra te odiar mais uma vez.

6 comentários:

Anônimo disse...

que num fututo próximo eu passe a ter sua coragem! e você sabe pra que!
Parabéns por mais uma crônica tão boa.
bjo moça.
Dida.

Anônimo disse...

bonito, bonito

Anônimo disse...

Ritinha, que talento que tu tem de escrever coisas que são difíceis até de formatar no pensamento. Saudade, vi? Bjão, Lôra.

Anônimo disse...

Reflexões sobre esse substantivo comum (comum ??!! - ih, esqueci que vc não gosta disso) "o não-você".
O não-você pode ser o não-era-para-você ou ainda, e eu torço mais por esse, o jamais-você.

Nesse sentido, seria uma negação polêmica, ou seja, pode haver aí uma relação de contradição com o que se refuta, afirmando-se, nesse caso, o sim-alguém.

Complicado, né?
Bom, deixa para lá. Mas que você ainda tem jeito, isso tem sim.
bj,
Lori

Marcela Egito disse...

Que texto lindo. Final perfeito :)

Flavita disse...

excelente texto, ritinha! :-)
beijo grande!
Flavita