terça-feira, 14 de dezembro de 2010

NOITE FELIZ III

por Rafael Moreno



Assim que os primeiros presépios começaram a decorar as calçadas de empresariais e luzinhas foram colocadas nas varandas e nas sacadas das casas e apartamentos, Thiago decidiu entrar no Google e pesquisar como se construía uma lareira. Comprou tudo num impulso e começou com uma marreta derrubando o teto e subindo, tijolo aparente a tijolo aparente, uma larga lareira bem ali, onde antes ficava a televisão. Elvis, o cão, espiava, com a língua para fora.

Aí, quando os cartões de natal começaram a chegar em sua caixa de e-mails ele foi para a floresta cortar lenha com raiva, pensando nas pessoas que atrasavam o trânsito para olhar a decoração natalina da cidade e a árvore gigante e horrorosa que construíram e, sobretudo, pensava nos Papais Noel adesivados nas vitrines das lojas ou, pior, fantasiados na frente das mesmas e balançando os sinos gritando Ho ho ho ou, pior, sentados nas praças dos shoppings esperando crianças o abraçarem.

Chegou a véspera de Natal e Thiago serviu-se de uma boa dose de Jack Daniel’s, sem gelo porque Jack Daniel’s não se mistura com nada, e acendeu a lareira. Ficou tranquilo, sentado na poltrona, assistindo ao fogo consumir a lenha.

Exatamente à meia noite Papai Noel caiu pela chaminé e, poucos segundos depois, estava rolando pelo chão, com a roupa vermelha em chamas, com a barba branca sendo queimada pelo fogo, com presentes que se espalhavam pelo chão e eram comidos por vermelhas labaredas carbonizando bonecas Barbie, Playstations e kits-maquiagem. Papai Noel debatendo-se e pedindo ajuda, não sabendo se salvava a si próprio ou aos carrinhos de controle remoto, as bolas de futebol, as sapatilhas de bailarina. Então Thiago tirou os sapatos e esticou os pés, para serem aquecidos.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

COMO VOCÊ ESTÁ HOJE?

por Maria Rita Angeiras


Uma delicada ante-sala me preparava para a sala propriamente dita. Sentei em uma das cadeiras floridas, aquecidas por um pequeno abajur e uma revista em inglês sobre Paris, e fiquei esperando a minha vez chegar. Olhei novamente para a revista e, como todo mortal de classe média do mundo, pensei que Paris pudesse resolver todos os meus problemas do momento. Talvez eu pudesse usar todo o dinheiro que eu ainda vou gastar com terapia com uma viagem para a França. Lá eu teria um subemprego simpático, sem a competição massacrante dos grandes escritórios, um apartamento onde eu chegasse cedo para manter minhas flores vivas e um amor que eu não tivesse preguiça física e emocional de manter porque eu não estaria sempre tão cansada do meu trabalho. Mas eu desisto de ir para Paris e continuo sentada esperando a minha vez. A minha vez de contar para uma estranha de sorriso simpático que eu sou apenas mais uma com nomes diferentes para contar as mesmas histórias, porque todos nós queremos desesperadamente ser normais, amados e aceitos, além de felizes, bonitos e bem-sucedidos, sem excessão. Nós queremos a felicidade pasteurizada, comum a todos, porque assim parece mais fácil e menos doloroso. Então nós deitamos em lindos divãs pretos estofados, com o nosso vácuo de alegria distraída, e imploramos uma vez por semana para alguém ajudar a gente a juntar todos os caquinhos que sobraram das nossas expectativas retas e das nossas expressões duras. E essa ajuda vem e tudo começa a fazer mais sentido e a gente começa a se sentir assim, mais comum, mais um na multidão, exibindo heroicamente nossa felicidade de muletas. E tudo isso faz muito sentido até eu sentar na minha própria cama e pensar ‘até quando’? Até quando eu (fique à vontade pra se incluir, se for o caso) vou sentar na frente de uma estranha de sorriso simpático e falar dos meus problemas, tão comuns à própria existência? Até quando eu vou sentar na frente de uma estranha de sorriso simpático e cair no choro, tão comum a qualquer um que é minimamente capaz de sentir dor? Até quando eu vou sentar na frente de uma estranha de sorriso simpático e chegar a explicações plausíveis, tão comum ao final de certos aprendizados? Até quando eu não sei, até porque eu ainda estou aqui, sentada na cadeira florida, lendo um livro sobre Paris, presa na ante-sala, prevendo o meu futuro quando entrar lá. Mas uma coisa eu posso dizer: um dia, depois de você ter segurado a minha mão por algum tempo, eu vou simplesmente soltar, num protesto silencioso por toda essa supervalorização em massa da zona de conforto. Porque não dá pra escolher sentir a dor pela metade sem escolher, também, viver a vida pela metade.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

CARECA É O NOVO MULLET

por Rafael Moreno


Por um motivo de justiça, o mundo será careca.
É só olhar para trás que você percebe: eles realmente merecem.
O mundo já foi cabeludo demais.
O mundo já usou mullets, só para você ter uma ideia.
E mullets, meus caros, são o exagero do cabelo.
Uma afronta aos calvos.
É como uma modelo ir à praia de Boa Viagem.
Todos nós sabemos que Boa Viagem não tem estrutura para receber uma modelo, porque ela simplesmente eliminaria as outras mulheres.
Não aos mullets e não às modelos em Boa Viagem.
Vamos lá: imaginemos a vida de um careca nos anos 80.
Ele colocava o seu All Star preto, sua calça jeans apertada na canela, vestia uma camisa preta e ia ao cinema, com a namorada.
E o que estava passando na única sala?
Máquina Mortífera, com Mel Gibson, no auge do seus mullets.
Mel Gibson balançando a cabeleira enquanto pulava para matar bandidos.
Não bastava ser ator, bonitão e matar bandidos.
Ele tinha mullets.
E eles balançavam!
Aí o tempo mudou.
Mullets viraram coisa de argentino e o brasileiro começou a cortar o cabelo como surfista.
Menos o careca.
O careca podia até surfar, ter a melhor prancha e pegar tubo, só que não ganhava ninguém numa boate porque faltava a pinta de surfista.
Faltava o loiro-parafina.
Mas, que alívio.
Durante a Copa América de 2003, Ronaldo e Roberto Carlos rasparam os cabelos de todos os jogadores da seleção.
Que alegria poder ver o time inteiro sem cabelo.
Foi um dia de glória para o careca.
Ele saiu na rua sem boné.
Até Gonçalves, o cabeludo Gonçalves, ficou com o teto brilhando.
Adeus, boina e chapéu panamenho.
Adeus?
Nada disso: alegria de careca dura pouco.
Pouco mesmo.
Porque Felipe Dilon chegou com seus cachos.
Todo o Brasil usando cachos.
Não existia mais cabelo ruim.
Existia cabelo cacheado.
E o careca tinha que se contentar em mostrar fotos da sua infância, dizendo Eu era bem cacheadinho.
O careca andava com uma foto da sua infância na carteira.
Chegou a fazer um álbum inteiro no Orkut.
Mas calma.
Calma.
Isso vai mudar.
Por um motivo de justiça, o mundo vai ser careca.
Os cabeludos, coisa démodé, disputarão uma cadeira nos cabeleireiros, pedindo pra passar a zero, por favor.
Ou então: Deixa só um tufinho aqui na frente.
Ou ainda: Prepara uma coroa de frade mediana, do tamanho de um pires.
Xampus serão vendidos, oferecendo uma “queda natural” para os seus cabelos.
Metrossexuais comprarão cremes para deixar o couro cabeludo macio e cheiroso.
A frase É dos carecas que elas gostam mais deixará de ser a maior mentira da humanidade.
O mundo vai ser careca.
Justiça!
Justiça para os carecas.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

NAS ENTRELINHAS

por Maria Rita Angeiras


Poetas e escritores de quinta, destacando que o 'de quinta' é apenas um jeito charmoso de denominar a classe que escreve sem grandes pretensões burguesas, são a nata artística da virilidade dos homens. Têm o costume de ocupar as mesas dos bares sem aquela falsa despretensão indie, e fazem do chão sujo dos botecos um templo de adoração dos amigos garçons, da cerveja estupidamente gelada e, claro, de reverência às suas musas inspiradoras. Estas, ao contrário da maioria que se vê por aí, não se aventuram ao longo dos azulejos azuis em saltos doze centímetros ou em calças jeans 'dois números a menos, por favor'. Em compensação, têm a graciosidade estampada nos tênis infanto-juvenis, no cabelo quase sempre bagunçado e cansado do dia-a-dia, na maneira apaixonada com que defendem seus ideais pseudo-feministas e na revelação dos amores comunistas que vão fazendo ao longo da noite, de acordo com o adorável nível alcoólico. Não querem presentes caros, mimos exóticos, mensagens amorosas às oito da noite, mensagens desesperadas às cinco da manhã e e-mails com declarações de amor virtual. Querem a vivacidade dos poemas, a dor dos sonetos, a continuação das estrofes, a perdição dos trechos, a narração dos enredos, a descrição das crônicas e a simplicidade dos textos. Desejam, sem nenhum apego consumista, deitar por cima de papéis, abraçar bilhetes e escrever na parede um pedaço dele, na tentativa de aprisionar aquela poesia entre quatro paredes. E enquanto outras falam de borboletas, estas carregam na barriga frases, palavras, orações e letras. E diante de tanta poesia, se alguém vem me falar de preço, eu viro a cara, mudo de calçada e até finjo que desconheço. Porque não dá pra comparar a conta de um jantar romântico com a eternidade de um soneto.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

SÉPIA

por André Muhle



Hoje eu acordei com saudade. E, como de costume, comecei a ver minhas fotos. Das mais recentes para as mais antigas. Fotos da faculdade, das namoradas, dos churrascos, do colégio, dos aniversários. Vi fotos de todos os tipos, mas quando cheguei nessa aí de cima, parei quase que imediamente. Deve fazer pelo menos umas 2 horas que mal consigo tirar os olhos dela.

A foto é linda, não só porque eu era um belezura, mas pela composição, pela paisagem, pela harmonia. O tom marrom avermelhado da imagem, faz com que o mar se confunda com a própria areia e ai fica difícil dizer onde termina um e onde começa o outro. Mas pela minha cara isso não parecia ser lá uma grande preocupação.
É claro que não consigo me lembrar de nada desse dia, mas tenho plena convicção de que eu era infinitamente feliz. Eu não tinha um computador, não tinha 50 e-mails por dia, não tinha ex-namoradas, não tinha lembranças saudosas. Enfim, eu não tinha nada que me deixasse triste. No máximo uma fralda apertada, uma fome inexplicável ou um sono gigante.

Eu não sei se eu estava tentando me levantar ou se tinha acabado de me abaixar ou, talvez ainda, se eu gostava ficar assim por horas e horas. Sei menos ainda se eu estava olhando pra minha mãe, pro meu pai, pro sol ou pra alguém que passou olhando pra mim como quem diz "olha que fofinho". Tudo o que sei é que dá pra ver a sombra de uma pessoa no cantinho inferior esquerdo da foto. Provavelmente eu também não estava com vergonha desse short ridículo que devia juntar um monte de areia e me deixar com uma assadura terrível.

Também não sei que fim levou aquela mãe e aquela filha, lá no fundo da foto.
Mas com certeza ela não estava feliz por ter que caminhar em pé de mão dada no sol quente. Eu sim, tinha liberdade. Eu sim, podia ir pra onde quisesse. Provalmente também, essa mesma menina hoje deve ser uma promotora de justiça que, depois de 3 divórcios, está criando os dois filhos sozinhos no sexto andar de um prédio qualquer. A mãe, coitada, se ainda for viva, deve ter como única diversão as aulas de hidroginástica para curar a artrite e a osteoporose.

Seja como for, essa foto me fez sentir uma saudade terrível, uma nostalgia até difícil de explicar. Mais que isso, me fez sentir uma vontade enorme de estar, hoje, exatamente como naquele dia, naquela praia, com aqueles pensamentos. Mas infelizmente, nem tudo é tão possível assim. Me contento então em saber que um dia, naquela praia eu fui mais feliz do que nunca e que aquela sombrinha ali, no canto inferior esquerdo da foto, talvez seja da mesma pessoa que, agora, deve estar lendo esse texto toda cheia de orgulho.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O MEU TRAVESSEIRO PELA SUA JANELA

por Rafael Moreno


Eu tenho saudades de muita coisa da minha infância, mas da Belina 87, não. E olhe que vivi a melhor viagem da minha vida dentro dela, espremido entre Artur, Mariana e Tia Marcinha, porque sim, naquele tempo se podia colocar quantas pessoas entrassem no banco de trás. E, se não coubessem mais, dava pra ir na mala também, naquele tempo, mas a nossa já estava entupida de mochilas, refrigerantes e sanduíches (pausa: a melhor lembrança dessas viagens eram os sanduíches que minha mãe preparava, de queijo e presunto, só queijo, só presunto, com manteiga, com requeijão, de atum.. eram mais disputados que Pipo’s). Saímos do Recife com destino a Belo Horizonte, parando no caminho por inúmeras cidades, como Barra de São Miguel, Penedo, Aracaju, Cachoeiras, Porto Seguro, Vitória, Ouro Preto, Tiradentes e Mariana, só para citar as que me lembro.

Foi nessa Belina del Rey cor de areia que, além de conhecer o Brasil, eu conheci o tédio.

As horas dentro do carro eram intermináveis. As paisagens eram as mesmas durante muito tempo. Eu nem sabia ler direito para ver a distância em quilômetros. Não tinha ar-condicionado. Nada de rádio. A humanidade estava feliz com VHS, nem cogitava criar o DVD, ainda mais para automóveis.

É difícil acreditar, mas até mesmo três crianças com a mesma idade se cansam umas das outras e o repertório de brincadeiras dos meus pais e de tia Marcinha não aguentava a pressão Arraial d’Ajuda–Vitória do Espírito Santo. Brincar de “quantas bicicletas vocês conseguem contar” é divertido durante vinte minutos, no máximo por vinte e dois.

E a Belina parava de vez em quando no meio da estrada e painho precisava colocar água no radiador.

E a famosa pergunta Falta Muito acontecia o tempo inteiro.

E fazia calor, muito calor. Quem ficava na janela onde estava o sol segurava o choro ou oferecia algo de valor em troca, como o travesseiro.

Você tem filhos? Não importa. Junte três crianças no banco de trás de um carro sem música. Abra os vidros e desligue o ar-condicionado. Agora diga: faltam oito horas. Depois experimente oferecer uns sanduíches que não sejam da McDonald’s.

Daí ontem, ou antes de ontem, eu estava vendo televisão e passou o comercial de um carro que vem com PlayStation. Era apenas um dos mil atributos do potente 4×4, mas, nessa parte, apareciam dois meninos com o joystick na mão jogando e olhando para uma televisão que ficava na altura do para-sol. Colocassem um Pinball na Belina 87 e eu seria feliz, feliz demais.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

TODA MULHER JÁ FOI POSTE POR UM DIA

por Maria Rita Angeiras


Com o passar tempo, você finalmente superou. E um dia não foi mais tão estranho encontrar com ele nos lugares. Seu corpo aprendeu onde colocar as mãos sem que elas parecessem perdidas no seu próprio bolso. Seus olhos aprenderam a não procurar por ele nas festas e a passar de relance por todas as mulheres que seguravam o braço dele, numa mistura de ódio e simpatia, e também aprenderam a não chorar toda vez que ele fazia você se sentir mais uma na listinha dele. Seu cérebro aprendeu que essas coisas do coração doem demais e que você precisa pensar umas trezentas vezes antes de se apaixonar por qualquer homem minimamente parecido como ele. Sua boca também aprendeu a não te xingar baixinho de estúpida quando aquilo tudo voltava como um filme na sua cabeça. Sim, você aprendeu, a duras penas, e quando nem a sua mãe colocava mais fé no seu adorável dedo podre para homens. Aí o tempo passa, você toca a vida, e aqueles encontros com ele são só mais uns encontros comuns, como todos os outros, até o dia em que você resolve, espontaneamente, se interessar por um primo de quarto grau, um amigo afastado ou um conhecido dele, porque o mundo é pequeno mesmo, fazer o quê. Azar o seu, parte pra próxima. Assim como um cachorro quando passeia na rua, ele vai fazer questão de marcar o território dele, ou o ex-território, que nesse caso é você. Como? Fácil. Segurando a sua mão, pegando no seu queixo, mexendo no seu cabelo ou usando qualquer outra estratégia milimitricamente calculada bem na frente do seu prospect, deixando bem claro que ninguém é de ninguém, mas só até o momento em que ele balizar alguma mulher que já foi dele com um sutil, mas significativo toque. E é nesse exato segundo, distraída com a pseudo delicadeza do gesto, que você se transforma numa mulher-poste. Aí não tem mais jeito. O cara que você nunca teve de verdade já era, o cara que te interessava já era e você também já era, marcada por uma coisa que nem existe mais, que você já superou e que ele também já superou, mas que ele é muito pouco homem para simplesmente deixar ir. E antes que você pense que eu ia poupar você - e eu - dessa terrível constatação, aqui vai ela, eternizada na grande lamentação existencial de um poste, após receber a visita de um cachorro: sim, ele mijou em você.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

ENCONTRO ÀS CEGAS É MAIS CHARMOSO EM INGLÊS

por Rafael Moreno



Nos anos 80, ainda existiam legítimos blind dates, que é o mesmo que encontro às cegas, mas fica bem mais charmoso em inglês. Você estava lá, solteiro, com aquela cara de Me apresenta a alguma amiga, pode ser qualquer uma, não me importa se ela fuma ou se tem gases, só preciso conhecer alguém, e o seu amigo do escritório, preocupado, dizia, fingindo que não tinha lido a sua cara:

­— Tenho uma amiga que, ó, supimpa.

— No duro?

— Pode confiar. Quer que eu te apresente?

— Abalou.

Aí Fulano ligava para a amiga que estava morrendo de medo de ser madrinha de cinco meninos e que já havia esquecido de conhecer um médico ou advogado, falando um pouco sobre você:

— Olha, tenho um amigo pra te apresentar.

— Jura?

— Palavra. Posso dar teu telefone pra ele?

— Pode sim. Ah, se pode.

Daí você marcava com a garota dizendo “Vou estar de colete azul e All Star vermelho”, e ela chegava, e vocês passavam horas buscando coisas em comum: signos, marca de chocolate, escola onde estudaram, filme do Indiana Jones preferido, melhor música da Legião Urbana, essas coisas que fazem as pessoas se convencerem de que são muito parecidas ou muito diferentes, mas que, na hora do desespero, é bom ser muito parecido e também é maravilhoso ser muito diferente. Tudo vale. Depois trocavam telefones, que nem começavam com o número três, e marcavam um outro dia para comer uma banana split ou passear de patins.

Hoje, não. Hoje, não. Se Fulano diz que vai apresentar uma menina a você, no mesmo segundo você entra no Google, Facebook, Twitter e Orkut. Vê todas as fotos possíveis, buscando alguma em que ela esteja de biquíni. Sabe os lugares para onde ela viajou, os livros preferidos, as comidas. Se quiser, pode até baixar o currículo profissional dela.

Aí você vai pro encontro sem nem precisar dizer a roupa que está usando.

— E aí, Edvânia?

— Tudo beleza, Vicentino?

— Tudo massa.

— E aí, gostou do show ontem?

— Ah, foi bárbaro, mas você nem foi, né?

— Não pude ir porque…

— Teve aniversário do sobrinho, eu vi. Tá grande o Rodolfinho, né? Um amor.

— Ele é o máximo. Tem quase a idade de Etelvina, sua prima, filha de Aracy.

— É verdade.

E amanhã? E amanhã? O casal se conhece através de um melhor amigo em comum na Fifth Life, mas querem quebrar o protocolo e se encontrar. Ao vivo.

— Tudo bom? Que pergunta! É claro que sim, você acabou de ser promovida. Está ganhando doze salários-mínimos, conseguiu resolver o problema da acne, e faltam seis páginas pra terminar a monografia, que está difícil, mas você ainda tem vinte dias e conseguiu folga no emprego para a quinta-feira que vem.

Diga adeus à insegurança de faltar assunto, de não saber que comida pedir, de esconder que está ficando careca, de sorrir com a mão na boca para não mostrar um dente quebrado, de se amostrar bem muito falando sobre as suas qualidades, de contar as histórias engraçadas que viveu e foi herói. O blind date está com os seus dias contados. Salvo, é claro, numa única e absoluta condição: ser cego.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

AQUELE NOSSO PÍER

por Maria Rita Angeiras


Não era um píer. Aliás, era sim. Apesar do tamanho e da simplicidade, cumpria sua função determinada pela regras da engenharia, sendo ‘uma passarela sobre a água, suportadas por estacas ou pilares, permitindo que marés e correntes flutuem quase desimpedidas’. Mas, para mim, não era apenas um píer. Era o lugar onde eu tinha escolhido passar um tempo, depois de abrir a caixa de força da minha cabeça e desligar alguns botões que há tempos não viam descanso. E nós dois estávamos ali, sentados no chão daquele píer gelado. Você tentando adivinhar as estrelas que se escondiam embaixo da noite nublada e eu simplesmente sorrindo do seu jeitinho adorável de apontar para o céu e fingir ser profundo conhecedor de constelações, só para me agradar, garantindo que cumpriria com louvor todos os detalhes românticos do meu antigo imaginário adolescente. Você e os seus olhos, que o famoso poeta descreveria como vertiginosamente azuis e que eu não descreveria com palavra nenhuma, porque elas são tão tímidas e limitadas. E também me lembro do jardim que você me arrastou para conhecer, enquanto tropeçávamos pelas calçadas. O jardim que tinha uma pequena mesa de madeira, com várias cadeiras em volta, e uma placa onde se lia algo que você traduziu como ‘particular’, apesar do portão aberto que permitia a entrada de qualquer um naquele lugar mágico, onde folhas de outono faziam as vezes de tapete, em uma mistura harmônica de laranja, amarelo e vermelho. Um lugar com uma beleza diferente de tudo que eu estava acostumada a ver e com uma perfeição que nem a noite conseguiu disfarçar, endossando as cores do outono na cor das casas que se dispunham em volta, como em um abraço apertado. E, antecipando a minha partida, eu já me despedia de tudo aquilo, sem você saber. Então deixei o tempo congelar lentamente, junto com os poucos graus que ilustravam aquele cenário. Depois de alguns segundos tentando me desconcentrar dos seus olhos azuis, o tempo finalmente parou. E lá estávamos nós, sentados naquela mesa de madeira. Eu, você e a minha liberdade que você colocou no seu bolso.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

PRETA

por Andre Muhle

Vocês vão me dar razão quando eu disser que a senhora que conheci, há duas semanas no supermercado aqui do bairro, tinha um quê de insana. Na beira dos seus 70 anos, a curvada consumidora tinha uma fixação doentia por comprar lâmpadas queimadas. Passava horas e mais horas na frente do testador, colocando lâmpada por lâmpada até encontrar uma que não funcionasse. Não tinha outra, se a lâmpada tivesse queimada ia direto pro carrinho. Não tive coragem de perguntar o porquê dessa mania curiosa, até porque essa história nada tem a ver com o texto que vem a seguir. Só mencionei a tal senhora para que eu parece menos louco depois de vocês lerem o que vem adiante. Tenho sido constantemente rechaçado e discriminado pelo módico fato de ser apaixonado por remédios. Meus amigos estão me deixando de chamar para sair, já não recebo mais a convocação para as reuniões de condomínio e tenho perdido dezenas de seguidores no twitter todos os dias. Assim como tem gente que gosta de lâmpadas queimadas e gente que assiste Raul Gil, eu gosto de remédios, porra. Na verdade, eu amo remédios. Faço questão de ir pra farmácia, mesmo sem ter nada pra comprar. Gosto pelo simples prazer de passear entre as prateleiras. Aquele leve cheiro de éter espalhado no ar, aquela luz branca intimista e aquele colorido mágico de tarjas azuis, vermelhas e pretas. É uma sensação que beira o indescritível. São tantas novidades. Tantos remédios novos para dor de cabeça, para gastrite, para insônia. A vontade que eu tenho é de sair com sacolas e mais sacolas. Acredito piamente (continuo adorando essa palavra) que depois de tomar um remédio, qualquer que seja ele, eu sempre serei uma pessoa melhor do que era antes. Não pode ser genérico, nem muito menos esses homeopáticos que, para curar uma simples dor de cabeça, você precisa tomar 12 gotinhas todos os dias durante uns 5 anos. Tem que ser remédio de verdade, desses com efeitos colaterais e tudo mais. Inclusive não posso ler uma bula que em 5 minutos já sinto todas as reações adversas. E aí, se tomo um remédio pra gastrite, logo começo a sentir dor de cabeça. Então, tomo o remédio pra dor de cabeça e começo a sentir uma dor no fígado. E graças a esse raciocínio, fico tranquilo por saber que nunca precisarei parar de tomar remédio. Inclusive o Google tem me ajudado muito nesse sentido. Se sinto uma dor na nuca e começam a aparecer manchas vermelhas no corpo, vou lá na busca e descubro milhares de resultados. Um mundo novo se abre em frente aos meus olhos. Passo horas me deliciando com todas aquelas possibilidades: faringite bacteriana, hérnia de hiato, síndrome do intestino irritável e assim vai. Claro que tenho consciência que exagero um pouco. Muitas vezes queria tentar ser um pouco menos hipocondríaco. E, é por isso mesmo, que vou deixar aqui a promessa. No dia que inventarem uma cura pra hipocondria, vou ser o primeiro a correr até a farmácia pra comprar o remédio.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

É PROIBIDO FUMAR

por Rafael Moreno



Um dia proibiram o cigarro de vez.
Digo, não de uma vez:
Começaram tentando mostrar que fazia mal.
Que dava câncer.
Pulmão, garganta e sei lá mais onde.
Ninguém acreditou.
Ou quase ninguém: um a cada cem fumantes desistiu do cigarro.
Mais ou menos isso.
Aí disseram que fazia mal ao feto.
Que dava mau hálito.
E, novamente, pouca gente levou a serio.
Aí disseram que causava impotência.
Colocaram nas embalagens e tudo.
Cigarros impotentes, homens de cabeça baixa.
O cidadão ia comprar o cigarro e pedia:
Me vê um do câncer aí, Legal. Ou uma enfisema.
Alguns pararam do fumar na mesma hora.
Outros adoraram ter a desculpa.
É culpa do cigarro.
É culpa do cigarro.
Até que veio o baque maior.
Proibiram o cigarro em lugares fechados:
Todo mundo pra varanda.
Aí proibiram o cigarro na varanda:
Todo mundo pra rua.
Aí proibiram o cigarro na rua:
Todo mundo, pra onde mesmo? Como assim?
Então você podia fumar em lugar fechado outra vez?
Não, senhor.
Só em casa, escondido da polícia.
E dos filhos.
Sobretudo dos filhos, educados pela sociedade a discriminar o fumante, desde cedo.
Um amigo, pais de duas meninas, fumava trancado no banheiro, soprando na privada e dando descarga.
Depois colocava desodorante no ar, exatamente como fazia quando começou a fumar, anos e mais anos antes, escondido dos pais.
E teve o problema do tráfico.
Senhores e senhoras subiam a favela para comprar Malboros, Carltons e Frees.
Viciados vendiam celulares, sons de carro, aparelhos de mp3.
Começaram a se endividar.
E o tráfico começou a matar mais fumantes que o câncer.
As blitz se esqueceram do problema do álcool e começaram a fiscalizar os fumantes.
Uma pitada já dava cadeia.
E uma multa enorme.
Fumantes passivos eram presos por engano.
Não dava nem pra dar uma disfarçada, fumando sem tragar.
O Fumômetro pegava tudo.
Ficou cada vez mais arriscado, mais divertido.
Era a nova adrenalina.
Nunca foi tão gostoso fumar.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A MÃO DELE NO MEU QUEIXO

por Maria Rita Angeiras


Você sobrevive naquele momento em que eu estou com alguém e minha cabeça se distrai, deslizando meus olhos delicadamente para o lado esquerdo, enquanto a cabeça permanece imóvel, apenas fingindo acompanhar o que a outra pessoa está dizendo. O mesmo momento em que essa outra pessoa coloca a mão no meu queixo e pergunta, em uma caótica mistura de curiosidade e angústia, o que eu estou pensando, na tentativa de arrombar essa porta que eu coloquei entre ela e eu para finalmente entrar na minha cabeça, onde você está confortavelmente alojado. E isso viola minha liberdade de todas as maneiras que você conseguir imaginar. E essa pessoa não sabe, mas essa vai ser apenas a primeira das tantas vezes em que eu vou fazer isso, até encontrar alguém com quem eu queira passar mais do que meia hora em um restaurante ou até o dia em que você parar de sobreviver nesses segundos em que meus olhos procuram um ponto de fuga e ficam concentrados na sua estúpida e desnecessária existência dentro da minha vida. E, com sorte, um dia eu vou ficar parada na frente do microondas, vendo a comida girar, num balé interminável que me coloca em transe, e você não vai aparecer para me lembrar do quanto é um cara incrível, adorável e impossível. E a comida girando vai ser só mais uma comida girando durante cinco minutos na bandeja. E o timer vai alcançar a contagem de 3, 2, 1 e eu finalmente vou voltar a mim, sem sequer ter lembrado de você naquele espaço de tempo ocioso. E esses minutos preciosos vão ser de outro alguém, talvez daquela mesma pessoa que não vai mais precisar virar o meu queixo para me lembrar de que ela está logo ali, bem na minha frente, e não você, e não aquele lugar para onde eu fujo dentro da minha cabeça para encontrar você, rir das suas piadas tímidas, lembrar dos seus olhos, encarar a sua resignação ou para comparar você com os caras que eu conheço. Um dia isso ainda vai acontecer, eu espero, e a minha liberdade não vai ser mais violada pelos seus adjetivos e pela insegurança dos outros, que eu batizo de tempos em tempos com a minha falta de. Falta de vontade, falta de interesse, falta de atenção. Mas se nem assim, nem com o passar do tempo, nem depois de eu conhecer muita gente, você não fizer a gentileza de sair da minha cabeça, então eu quero sair dela, por favor.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

TOSSE, TOSSE, TOSSE

por Rafael Moreno


Ficar doente já foi bom um dia. Ah, já foi. A gente tinha febre e deitava na cama, coberto até o pescoço por lençóis, enquanto o resto da família nos arrodeava com suco de laranja, biscoitos e gibis. Dependendo da temperatura e do tempo da doença, a televisão poderia, vejam só vocês, ser transferida para os nossos quartos. E televisão no quarto, naquela época, era coisa fina, tipo cinco estrelas. Ficar doente significava ter a mãe que faltava ao trabalho e passava o dia colocando a mão nas nossas testas, ajeitando as cobertas, perguntando se nos sentíamos melhor. Aí a gente colocava aquela cara de filho, olhando de baixo pra cima, e – tosse, tosse, tosse – soltava aquela tossezinha marota, que fazia a mãe se desesperar um pouco, ajeitar o travesseiro e trazer uma colherzinha de xarope que a gente fazia careta só de olhar, já que naquela época remédio tinha gosto de remédio e a gente precisava de um mimo pra poder suportá-lo: chocolate, guaraná Antarctica, um boneco Playmobil.

Hoje é muito diferente. Remédio é comprimido e você toma com água, recebendo ordens da mãe por telefone porque ela está ocupadíssima no trabalho. A febre passa mais rápido, hoje em dia. É um comprimido a cada seis horas e pronto. Não tem mais essa de ligar pro primo do marido que é médico. Ninguém se desespera para encontrar uma farmácia que esteja aberta de madrugada, prometendo a você que volta logo. É só abrir uma prateleira na cozinha e lá estão todos: o já citado paracetamol, a dipirona e o ácido acetilsalicílico. Prefere qual? Nem escolhem mais por você dizendo: esse é de cereja, tem gosto de chiclete, pode tomar que é gostoso.

E tem também a operação, que antes era em maiúscula e hoje vem, tranquilamente, em letra miúda. Digo mais, essa é uma palavra que um dia vai ter abreviação. Vou ali fazer uma ope. Mas em outros tempos, meu amigo, era coisa séria. Só se falava Operação seguida de um sinal da cruz ou de três toques na madeira. A família vinha do interior, duas semanas antes da cirurgia. A turma, com terço na mão, arrodeando a cama do paciente; os vizinhos que passavam pra cumprimentar oferecendo ajuda. Qualquer coisa é só avisar, é só bater aqui na porta, pode contar com a gente. E havia os presentes. Roupas, livros, bolos-de-rolo, discos de Roberto Carlos. No dia da cirurgia, era uma confusão. Tanta flor, tanta família, tantos amigos, tantos discos do Rei que os corredores ficavam cheios. As pessoas precisavam se revezar na sala. Era necessário algum controle. Tipo um irmão que ficasse na porta para escolher quem entrava, igual a segurança de boate.

E pobre de quem não fosse visitar o paciente. Entrava sem escalas na lista negra. Persona non grata. E o paciente, que agora era o centro das atenções, secretamente adorava tudo isso. Por exemplo, deixava claro, bem à mostra, o braço com o soro injetado. Ficava com o corpo meio mole, a voz meio rouca, meio cansada. E fazia caras, fazia caretas, interrompia as conversas que tivessem qualquer tema que não fosse ele. Se alguém começasse a falar da novela, soltava um aaaai, bem assim, bem demorado. Aí imediatamente alguém saía correndo para chamar a enfermeira, enquanto milhões de mãos apertavam as suas carinhosamente, alisavam seus cabelos, buscavam um copo d’água. Muita gente virou ator profissional depois de uma cirurgia. Descobriram, deitados na cama do hospital, uma vocação.

Nesses dias sem graça em que vivemos, você é operado e sai no mesmo dia. Não dá tempo nem de terminar uma cruzadinha, nem de ler a Veja. Sem contar que os amigos só se inteiram pelo Facebook. É difícil receber uma visita no hospital, hoje em dia. Ligam do celular, fazem uma piadinha. E o presente é um tapinha nas costas. No máximo. Fora isso, ninguém exibe mais, orgulhoso, uma cicatriz. É tudo na base da laparoscopia. Antes, não. Antes você tirava a camisa na praia, dando a maior pinta de que estava vivendo pela segunda vez. Antes você tinha um assunto para usar nas paqueras de bar, afirmando que ainda estava se recuperando de uma importante Cirurgia, com C maiúsculo, obviamente. Antes você ganhava um beijo da prima do interior, que dizia: É pra ver se você fica bom logo, primo.

Mas amanhã vai ser pior. Ainda pior. Amanhã, depois de tomar uma pílula, a vesícula vai sair assim que você for ao banheiro fazer o número dois. Amanhã um comprimido efervescente vai desinflamar o apêndice. Se você pensa em adoecer, meu amigo, aproveite agora. Adoeça hoje. Amanhã vai ser complicado. Nem faltar ao trabalho você vai poder.



texto originalmente publicado no www.shoppingrecife.com.br/30anos/blog

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O SILÊNCIO DO NOSSO CAPACHO

por Maria Rita Angeiras


Você é aquela coisa que não é. Aquele pensamento cansado que incomoda no final do dia porque fica passeando há longos meses na minha cabeça, entre a existência e a não-existência, testando até quando a minha capacidade de compreender, logo eu, que acho que dois mais dois não faz o menor sentido emocional de existir. E às vezes penso que você é fruto da minha imaginação, e eu fico te recriando dentro da minha cabeça, até o dia em que você virar uma grande frustração, porque ninguém, nem mesmo você, vai conseguir ser tão perfeito quanto eu te adivinho, toda vez que eu te revejo e odeio cada parte minha que simpatiza com todas as partes de você. E você tem medo, talvez, e eu também tenho. Mas, confesso, com toda essa estranheza psicológica que você me causa, que tenho mais medo de virar aquele pó que a gente fica varrendo pra debaixo do tapete, até o dia em que ele vira uma coisa suja, impossível de limpar e de transformar numa coisa bonita, só porque chegou a hora apropriada. E não é só isso. Sabe quando a gente se vê? É estranho. Minha vida não para, não sinto borboletas na barriga, não fico com a mão gelada e meu corpo te reconhece, talvez porque ele já esteja tão acostumado a ver você na minha cabeça diariamente. Mas, de novo, você não foi e você continua não sendo. E eu tenho essa vontade de que não seja nunca, só pra me vingar secretamente de todo o espaço oco e gratuito que você ocupa dentro em mim. Mas aí eu te encontro e perco a raiva. E na sequência de tantas baixas que você vem me causando ao longo do tempo, perco as palavras, os argumentos, a vontade, a noção de tempo, o bom senso e, pela centésima vez, perco você, e você me perde. Até o dia em que eu cansar dessa angústia de ir e vir, de tocar e não tocar, de dizer e não dizer, nessa coisa que é e não é.

domingo, 11 de julho de 2010

A TRISTEZA LHE CAI BEM

por Maria Rita Angeiras


A angústia consumiu todo o seu peito, eufemismo de pulmão, e você desistiu de fazer poesia, porque você passeia pelo oito ou pelo oitenta com a mesma frequência com que vai ao parque correr. Você não sabe se corre de algum lugar ou para outro lugar, mas continua mesmo assim, até sua perna e seu tornozelo se machucarem, depois de desistirem de andar atrás dessa sua fé impregnada de náuseas sartreanas, que você tenta queimar na fogueira, acendendo vela branca para salvar a sua alma do buraco do ceticismo. Tem essa risada boba e esse jeito meio infantil de se vestir, coisa de espírito livre, mas revela um sorriso desenvergonhadamente sério, acompanhado por olhos extremamente confusos e cabelos bagunçados, que lhe conferem uma angústia quase adotiva quando anda pelas ruas na luz amarelada do final do dia. E como você adora essa luz. Fica trocando de calçada feito uma louca, a cada cinco metros, só para acompanhar a despedida do sol, enquanto você tenta desesperadamente distrair esse seu lado escuro e questionador com um pouco de claridade, porque você tem aquela história de ‘sentir uma insolação quase febril de inconsciência do resto do mundo’. E como você gostaria de um pouco de inconsciência, meu Deus. Talvez você dormisse mais. Talvez você sonhasse mais. Talvez você usasse menos ‘sim’ e ‘não’ e tentasse um ‘talvez’. E de uns tempos pra cá, alguma coisa em você mudou. E você anda por aí com essa alegria constante, até meio vendida, no meio de tantas perguntas a se fazer, a se responder, mas que você ignora fazendo crônicas estúpidas com conclusões estúpidas, tornando você mais uma em qualquer lugar que vai, apesar de não se importar, apesar de achar que não, tantos apesar de. E, imediatamente, eu lembro de você passando pela portaria de cabeça baixa, com o cabelo preto preso em um rabo de cavalo alto e alguns fios caindo nos olhos, cheios de resto de maquiagem preta, que insistem. Você ainda enjoada dos seus próprios erros de menina, procurando nos bolsos algum resto de poesia, enquanto atropela, pelo chão, alguns pedaços das suas próprias vontades, que você esqueceu em algum lugar. E tudo isso, toda essa intensidade, tinha uma certa beleza, sabe? A tristeza lhe cai bem. Porque a alegria, quando freqüente demais, corre aquele pequeno risco de se vulgarizar.




blog pessoal: http://eusouurgente.blogspot.com

segunda-feira, 28 de junho de 2010

SEGUNDO

por André Muhle

É muito provável que no dia 18 de fevereiro de 1980, lá em Natal, quando minha mãe estava deitada na mesa de parto prestes a dar luz à minha pessoa, o médico tenha se aproximado dela e dito baixinho “Dona Cristina, eu vou só aqui na sala ao lado fazer um partinho rápido e em seguida volto pra tirar seu filho daí”. É muito provável também que aí, nesse exato momento, tenha nascido essa síndrome que já me acompanha há tanto tempo: a triste realidade de ser sempre o segundo. Uma tormenta que, espero eu, não seja uma exclusividade minha. Definitivamente, algumas pessoas nascem nesse mundo para serem as segundas. E quis o destino que eu fosse uma delas. Na verdade não é só o destino, acredito que no fundo eu também queira isso. Se eu chegar no cinema e encontrar todas as bilheterias vazias, por exemplo, vou dar uma volta pelo shopping até que a fila comece a ter pelo menos uma pessoa. A mesma coisa na academia. Nunca vou para um aparelho se ele estiver vazio. Tenho medo de chamar muita a atenção das pessoas. Dificilmente vou ser o primeiro a dar em cima de uma menina linda na boate. Mesmo que a menina linda esteja olhando pra mim, mordendo os lábios e levantando sutilmente o vestido. Provavelmente eu nunca serei a pessoa que alguém mais amou na vida. Nem serei a pessoa mais legal, mais inteligente ou mais descolada que você já conheceu. Acredite em mim, no máximo, mas no máximo mesmo, eu serei a segunda. Bom, é isso. Preciso correr agora pra ver o jogo do Brasil. E espero muito que se ele não ganhar essa copa, que pelo menos fique em segundo.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

LOVE IS NO BIG TRUTH

por Maria Rita Angeiras


Engraçado, assim como a música, tudo que eu também tenho feito o dia inteiro é dormir e pensar em você. E eu estou tão exausta dessa obrigação de descansar que às vezes eu me pego despertando mesmo já estando acordada há tantas e tantas horas, como se o tempo não passasse nunca na minha janela. Isso porque meu corpo desistiu de acompanhar a minha cabeça depois do décimo passeio que fiz hoje pelo supermercado, tentando achar nas prateleiras algum sentido para aqueles dias vazios ou tentando comprar, com o meu cartão de crédito, alguma coisa que me cause tanta alegria no estômago quanto a sua voz e os seus olhos. Mas a música corrige e repete, com uma melodia deliciosa, que o amor não é nenhuma grande verdade. Não, o amor não é nenhuma grande verdade. Com uma enorme flor branca nos braços, resultado de uma velha promessa que eu fiz e não consigo cumprir nunca, eu volto para casa discordando daquilo. É, eu discordo. Porque eu escuto a risada de Clara do outro lado da linha, enquanto ela brinca com os óculos de moldura vermelha, e eu me sinto tão viva que crio coragem de ser feliz sempre que a gargalhada debochada dela me pedir. Porque as palavras doces da minha mãe são o meu travesseiro, e esse jeito incorrigível que ela tem de botar fé no mundo é o que alimenta todos os dias o que sobra da minha poesia distraída. Porque eu decido ir para casa ver a minha família e, de repente, tudo faz muito sentido e eu perco essa expressão subliminar que me acompanha de segunda a sexta. Porque eu gosto de ouvir a sua voz e ela me acalma e eu sei que vai ficar tudo bem, porque você é o tipo de pessoa que sempre faz isso com os outros e porque eu sou o tipo de pessoa que sempre se apaixonaria por você, quantas vezes você quisesse. E, por fim, mas não por falta de outros argumentos, porque o amor, se não for uma grande verdade, é a única mentira que a vida precisa para ser muito, mas muito boa mesmo.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

GPS FOLGADO É AQUELE QUE USA RETICÊNCIAS

por Rafael Moreno


Quando o meu sogro (que, por sinal, é muito gente boa, um ótimo pai e eu espero que esteja lendo isso) veio visitar a gente em Buenos Aires, passou três dias. Nada mais que isso. Nesses três dias, nenhum a mais que isso, levei ele para todo canto. E, naturalmente, me perdi um bocado. Eram voltas imensas, ruas e mais ruas da mais pura enrolação, que já virou minha marca pessoal. Pegava a direita ao invés da esquerda, perdia a entrada da rua porque estava conversando, esquecia do endereço, essas coisas. Resultado: ganhei a fama de ser o sujeito mais sem noção de norte, sul, leste e oeste do mundo. E, de presente, um gps.

Nas semanas seguintes eu e Cecília entrávamos no carro e pá: direita, esquerda, siga 750m e pumba: bandeirinha de chegada (lembrete: eu não sou mamão, o gps realmente mostra uma bandeirinha de chegada). Além de tempo, economizava gasolina e a péssima música argentina tocando no rádio. É o famoso dois coelhos com uma cajadada só. Mas um dia eu coloquei o destino Av. Antartida Argentina 1325 e achei estranho quando ele me mandou parar na Libertador 3421, bem em frente a uma banquinha de revista. Tudo bem, o gps sabe mais que todo mundo. É super atualizado, tem satélites. É mais inteligente do que eu e Cecília juntos. Se jogasse Master seria o campeão, aposto. De última, a prefeitura trocou o nome dessa rua e ainda não mudaram a placa, foi o que pensei. Daí desliguei o carro pra descer. Foi quando escutei:

- Moço, pra chegar na Avenida Antartida, como faço?

Estranhei. Eu conhecia aquela voz. Era a mesma voz que me mandava reduzir a velocidade quando eu ultrapassava 60 km/h (opa, acertou quem se antecipou e já sabe que era o gps). Era o gps! Falava com o homem da banquinha de revista que, por sinal, respondeu numa boa. Duas para direita e uma pra esquerda. Sem erro. O gps falou Gracias e seguimos caminho. Chegamos rápido, inclusive.

Essa foi a primeira dele. Outra foi quando eu percebi que tinha passado várias vezes pelo mesmo lugar e ele nunca me dizia onde era, nunca colocava a bandeirinha de chegada. Perguntei se ele tava de sacanagem e ele disse que adorava aquela rua.

- Tem umas casas lindas, estilo colonial. Olha só essa varanda.

E ainda me mandou morar por ali.

- Aquele seu AP não tem nem garagem… sinceramente…

Era um gps folgado. Usava reticências e tudo. Assobiava pras meninas na rua. Pedia pra eu trocar de música, gritando Basta de tanto samba! Ou então cantava meus sambas e esquecia de me dizer pra onde ir. Era um gps folgado.

Vejam essa. Coloquei o endereço Juan B Justo, esquina com a Pedro Calderón de La Barça, porque tinha que visitar uma produtora que fica aí. Sabe o que ele fez? Deu a direção dessa mesma rua, mas em Córdoba. Como, Córdoba? Eu tô em Buenos Aires (e atenção, esse parentêses não tem nada a ver com o texto, é só pra mandar um abraço pro meu amigo Tarta). Tentei outra e outra vez e ele insistiu em Córdoba. Quando eu já ia lá pela quarta tentativa, ele falou:

- Vamos viajar um pouquinho, pegar estrada.

- Como?!

- Diz no trabalho que ta doente.

- Córdoba fica a mais de 1.000 km daqui.

- Então… diz que tá com a gripe suína. Eles te dão dez dias fácil…

- Você fala demais.

- É uma reta só. Vamos. Fico calado a maior parte da viagem, é só você não ultrapassar o limite de velocidade...

- Já falei que não. Preciso ir na Juan B Justo, aqui na Capital.

- A gente nunca viajou. Vamos. Deixa de ser careta.

Insisti outra vez e ele insistiu em Córdoba, outra vez. Desliguei. Guardei no porta luvas - por pouco não jogo pela janela. Agora preciso saber onde fica a Juan B Justo, esquina com a Pedro Calderón de La Barça. Alguém aí, por um acaso, saberia me dizer?

quinta-feira, 22 de abril de 2010

PEDIDO

por André Muhle

Não sou uma pessoa muito de televisão. No máximo, me dedico a um ou outro seriado. House quase sempre. The Tudors vez ou outra. 30 Rock quase nunca. Acontece que por um novo posicionamento na minha vida profissional, estou chegando em casa ainda a tempo de ver William Bonner e sua digníssima esposa. Confesso que tenho me assustado com a sensação de a mídia estar confabulando para um grande caos mundial. É avião que cai, morro que desaba, terra que treme, vulcão que explode e toda espécie de desgraça mundo afora. E aí, quase como uma defesa do subconsciente, acabo indo dormir pensando sobre como será minha morte. Sem querer entrar em mais detalhes sobre o assunto, mas já aproveitando a oportunidade, eu gostaria muito de fazer um pedido ao moço lá de cima, na esperança, é claro, de que ele leia esse blog. Seja lá como acontecer, por favor, me dê 30 segundos antes de eu morrer. 30 segundinhos. Nem mais, nem menos. Mas vamos às condições. Esses 30 segundos não podem ser de desespero, ok? Tipo procurando a saída de emergência ou levando eletrochoques no peito. O acordo é esse: eu não posso morrer de uma hora pra outra, sem ter consciência de que vou morrer, mas preciso de 30 segundos de intervalo entre eu saber que vou morrer e minha morte propriamente dita. 30 segundos de silêncio. De tranquilidade total. Como nos filmes, quando uma bomba explode e, de repente, tiram totalmente o audio para mostrar o ator em estado de catarse total. Ou quando o mocinho que também é lutador de boxe leva um murro enorme, cai no ringue e começa a ver imagens da namorada, do mestre que morreu e por aí vai. Pronto, é exatamente isso que eu quero. Ainda não parei pra pensar no que vou fazer com meus 30 segundos. Não sei se vou lembrar de quanto tinha 5 anos e minha mãe me pegou fazendo xixi no telefone. Não sei se vou lembrar de você que dormiu do meu lado no dia que eu bati o carro. De você que me fez ir num culto evangélico assim do nada. Ou de você que me deu aqueles pratos quadrados. Talvez acabe pensando em coisas insignificantes. Do filme que eu precisava devolver na locadora. Do iogurte de pêssego que deixei na geladeira pra tomar no final de semana. De ligar pra TV a cabo e dizer que eu também quero assinar o HBO. Não importa. Eu preciso, por favor, desses 30 segundos. É um direito meu. É um momento para eu ter medo e dizer “poxa, não podia ser agora” ou ter paz e pensar “tudo bem, já valeu a pena mesmo”. E então, estamos de acordo?

terça-feira, 6 de abril de 2010

VOCÊ BEM QUE PODIA SER ABDUZIDO

por Maria Rita Angeiras


Toda vez que você incorpora essa atitude insuportável, tentando minimizar as minhas complexidades humanas a pequenos estereótipos existencialistas de filme de cineasta sueco, eu tenho vontade de me afogar na xícara de cafezinho ou de abrir meu casaco de mulher-bomba e me detonar ali mesmo, só pra não ouvir os seus absurdinhos de gente absurdinha. Ou me transporto pra um computador e imagino a gente brincando de Call of Duty. Fico em dúvida entre a metralhadora e outra arma, mas acabo escolhendo a granada, só pra ver esse seu ego inflado chovendo em cima de mim, junto com todos os seus outros pedacinhos aparentemente seguros e certos de si. E, por algum motivo inimaginável, isso me acalma muito mais do que contar até 10. Até porque da última vez eu parei no 599 e você ainda estava lá, filosofando sobre coisas que realmente me entediam. Mas, pra ser honesta, isso não acontece sempre. Às vezes eu simplesmente faço promessas estúpidas, como assistir toda a odisséia aquática de Jacques Cousteau ou aprender japonês em linguagem de sinais, mas só se você parar de falar logo. Ou penso em escrever para a Ana Maria Braga e sugerir um intercâmbio com o Louro José, mas a Ana alega que não gostaria de acordar às 5 horas da manhã do seu lado. E, conhecendo o seu humor, eu entendo. E o pior é que eu gosto de você e daquele seu lado doce, carinhoso e inquestionável. Mas, no meio disso tudo, sempre tem aquele momento em que eu gostaria muito de realizar aquele seu sonho vulgar de ser astronauta pra poder te mandar pra Plutão, que até deixou de ser planeta, mas que continua sendo minha referência de lugar longe, só pra finalmente tirar férias prolongadas desse seu jeitinho arrogante de gostar muito de mim.

terça-feira, 23 de março de 2010

JÁ É DIA 24, MARI, E EU ESTOU LONGE DE VOCÊS

por Rafael Moreno



Já é dia 24, Mari, e eu estou longe de vocês. É dia 24 e tenho o rosto enfiado na janela, espiando os edifícios à minha frente. São várias luzes acesas, onde vejo famílias reunidas ao redor de uma mesa. Nessas mesas, Mari, eu vejo muita comida, Coca-Cola, vinho, salgadinhos, sanduíches, queijos, presuntos. Atrás dessas mesas, Mari, vejo árvores de Natal. Com presentes, com luzes que piscam, com enfeites. Já é dia 24, Mari, e eu estou longe de vocês. Fecho os olhos e deixo de espiar por uns segundos as salas do outro lado da rua. Fecho os olhos, Mari, e olho para a nossa sala. A sala do nosso apartamento em Casa Forte. Estamos nós dois, estão mainha e Tuca. Estamos os quatro sentados na cozinha, beliscando coxinhas e melando torradas em algum patê. Bebemos cerveja, eu e Tuca. Bebem vinho, vocês duas. Nossa mãe está feliz como em todos os domingos em que junta os filhos, mas hoje está um pouco mais feliz, porque é uma noite especial. É dia 24, Mari. A gente janta, com cuidado para não encher demais a barriga, porque depois ainda tem a casa de vovô, com painho e os dois bilhões de tios e primos. Depois de comer, seguimos pra árvore de natal, que tem uma decoração nova a cada ano, com coisas do mundo inteiro. Anjinhos, bolinhas, Papais Noel em miniatura, bengalas e luzes que piscam o tempo inteiro, inclusive durante o dia. Fecha os olhos também, Mari, e tenta lembrar da música que tem as luzes da nossa árvore. Nossa mãe está feliz, Mari, entregando os presentes, recebendo os presentes, explicando os presentes. Tuca como sempre compra algo para cada um e, como sempre, abraça mainha como se ainda fosse criança, quase tão feliz quanto ela. Nossa mãe está sorrindo, Mari, tentando esquecer que é mais um natal que passa longe dos pais e dos irmãos, que estão em Fortaleza, São Paulo e Brasília. É o primeiro natal que passo longe dos meus pais e dos meus irmãos, Mari. Por isso tenho o rosto enfiado na janela.


Como seria esse natal? Será que Tuca compraria presente pros três? Será que mainha compraria o mesmo pra mim e pra ele, no eterno esforço de não causar ciúmes em dois filhos que têm a mesma idade? E tu, Mari, teria passado o dia fuçando as embalagens, tentando descobrir o que cada um vai ganhar? Agora, depois do jantar, vamos os filhos para a casa de vovô, onde tudo continua bem parecido também: os tios e primos gritam o nome de algum tio ou primo quando alguém começa o amigo secreto dizendo "A minha amiga secreta..."; a mesa redonda com um milhão de comidas me vai encher a barriga e me impedir de tomar muita cerveja, empachado; os presentes, depois de dados, ficarão em cima dos sofás da sala ou dentro dos carros que chegaram cedo e conseguiram vaga no jardim. Mas sabe de uma coisa? Eu não me divirto mais na casa de vovô desde que vovó não distribui mais os seus presentes, do lado da árvore, com as sete tias repetindo o que ela fala. Rudrigo! Cadê Rudrigo? Presente de vovó para Rudrigo! Rudrigô! Eu não me divirto mais. No último ano, empachado, voltei cedo pra casa. Saí em silêncio e me sentindo culpado. Acontece que simplesmente não conseguia mais me divertir com aquela árvore cheia de enfeites e presentes, mas vazia sem vovó. Voltei cedo pra casa e, por sorte, painho também. Ficamos os dois conversando na varanda. Com certeza ele sente mais a falta dela do que eu e também não quis esperar a noite terminar. Ficamos na varanda, pai e filho conversando sobre qualquer coisa.

Como eu não tenho mais varanda, Mari, tenho o rosto enfiado na janela.

sábado, 13 de março de 2010

FILMINHO

por André Muhle

Espero de verdade que esse tipo de coisa não aconteça apenas comigo.
Só assim eu vou me sentir uma pessoa menos problemática.
Acontece que desde os 13 anos, eu penso num troço esquisito.
Fico imaginando que de alguma maneira a minha vida está sendo assistida lá em cima.
É como se existisse uma sala de cinema com uma plaquinha escrita “André Muhle” na frente.
E aí vão entrando meus amigos e parentes que já tenham morrido,
todos com sacos enormes de pipoca e copões de refrigerante.
Tem também aquele povo que não me conhece, mas que vai assistir mesmo assim
na esperança de ocupar melhor suas tardes de quarta feira.
É meio mórbido, eu sei. Mas é assim e pronto.
Por outro lado, isso me ajuda em vários pontos, principalmente quando estou sozinho
em algum lugar. Sabe quando você pensa “poxa, queria que tivesse mais alguém aqui pra eu dividir isso”?
Então, eu não penso assim. Porque sei que a platéia está todinha lá com os olhos
vidrados na tela. Talvez até com óculos 3D, já que agora tá na moda.
Bom, o que eu quero dizer e não to conseguindo até agora é que pensar assim
faz eu querer, sempre, deixar minha vida menos enfadonha e monótona.
Assim a platéia não pega no sono nem fica olhando pro celular de 20 em 20 minutos.
Semana passada eu tava vendo aquele filme Transformers e uma cena me chamou a atenção.
Logo no início, quando pela primeira vez o robô gigante se transforma num carro e abre
automaticamente a porta para os mocinhos do filme entrarem.
Enquanto a menina bonitinha parece hesitar, o que é bem plausível,
o garotão vira pra ela e pergunta assim “Daqui a 50 anos, você vai querer dizer
que entrou ou que não entrou nesse carro?”.
Imediatamente ela pulou pro banco de passageiros.
Sempre que escuto comentários do tipo “tem que ser muito louco pra fazer
uma coisa dessas”, “tem que ter muita coragem pra ir morar naquele fim de mundo”
ou “só uma pessoa sem juízo abriria mão de um futuro tão promissor”,
eu tenho a plena convicção de que estou no caminho certo. Juro.
Talvez porque toda vez em que cogite seguir o caminho mais óbvio, mais seguro,
eu me lembre da platéia lá de cima. De como eles devem estar torcendo pelas cenas de
emoção, de suspense. Entre um sapato preto e um verde, eu vou sempre preferir o verde.
Entre um país comum e outro onde eu vou me perder, eu vou preferir o segundo.
Entre abrir uma porta onde do outro lado eu sei que está uma loira sensual de lingerie
e outra porta onde o que está por trás é um grande mistério, um suspense,
é claro que eu vou abrir a porta da loira, até porque eu não sou idiota.
Bom, é isso. Resumindo tudo isso então: dá próxima vez que você se deparar com algum robô enorme
se transformando num carro, não pense duas vezes, abra a porta e entre.

quinta-feira, 4 de março de 2010

EU AVISEI PARA VOCÊ NÃO ABRIR ESSA GAVETA

por Maria Rita Angeiras


Eu tinha aquela certeza que a gente coloca dentro do bolso, rezando para que ele esteja devidamente furado, no tamanho exato para que algo escape enquanto as pernas vão embora correndo. Aquela certeza que a gente coloca na última prateleira do armário, lá em cima, empurrando para trás todas as outras coisas que você só usa uma vez por ano, e olhe lá. Aquela certeza que a gente enfia debaixo dos cinco travesseiros da cama, impossibilitando qualquer busca quando a cabeça desiste do dia e se deita. Aquela certeza que a gente enfia no capacho da porta, impedindo que ela sequer entre em casa junto com você, pelo menos naquela noite, por favor. Aquela certeza que a gente empurra na despensa com as costas, até ela encontrar um cantinho milimétrico entre o chocolate amargo e o chá verde. Aquela certeza que a gente afoga no banho, debaixo da água fria e corrente, pra ela entrar pelo ralo e ir embora de vez, quem sabe. Aquela certeza que a gente joga na bolsa no meio de um monte de treco e só acha três meses depois, quando ela começa a ficar maior que você. Aquela certeza que a gente enfia debaixo do sofá, seguido de um arrepio nos ombros, um movimento que varia entre vergonha, estranheza e repulsa, porque faz você parecer errada, confusa e perdida. Aquela certeza que não dorme, não come, não se distrai, não muda de casa e não sai de você. Aquela certeza que a gente tem quando uma coisa parece perfeita, mas, no final das contas, não cabe no seu dia, não encontra um lugar no seu ombro, não faz cócegas na sua alma, não arruma uma vaga na segunda, não torce pela sexta-feira, não comprime a sua cabeça e nem fica no seu telefone. Então sabe toda essa minha certeza de que te falei? Um dia desses, por descuido seu, ela escapou da gaveta.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

FALTA MUITO POUCO PARA EU COMPRAR MINHA PASSAGEM DE VOLTA

por Rafael Moreno


Em pouco tempo, estou falando de meses, eles vão começar a falar Cara, Bacana e Legal. Logo em seguida, comprarão os tênis da Nike, desses que vêm com molas e, quando a gente menos esperar, terão brilhos em suas camisas, além de muitas cores. Em pouco tempo as pessoas vão se desejar Bom Dia, Boa Tarde e Boa Noite e dizer Até Logo, quando forem se despedir. Não sei se a 10 vai ser de Pelé, mas a 9 está garantida para Luis Fabiano. Os dez por cento virão dentro da conta e Propina vai se chamar Gorjeta. Na Plaza Dorrego, na Florida e na feirinha da Recoleta as escolas de samba desfilarão suas mulatas, seus pandeiros, tambores e chocalhos, com um chapéu panamá para arrecadas uns trocadinhos depois. Algumas ruas vão mudar de nome, mas isso não vai ser tão rápido nem tão simples assim. Em cinco ou seis anos a Avenida del Libertador vai virar Rui Barbosa, a Santa Fe será a Juscelino Kubischek e o famoso bairro de San Telmo terá seu nome definitivamente cambiado, digo, mudado para São Telmo.

Os próximos edifícios serão construídos com jardins e, em cada jardim, um playground colorido divertirá as crianças – nada de praças. Os cachorros serão mais brabos, mais poodles, mais histéricos e terão que ser carregados em coleiras. Onde hoje ficam os Bosques de Palermo em pouco tempo – pouco mesmo – estará um shopping – o maior da America Latina. Em trinta por cento dos muros das cidades terão pixadas frases comunistas, contra todo e qualquer presidente, ainda que seja ele um comunista. E isso não vai demorar. Porque na Plaza Belgrano as cartomantes já falam Sorte, Dinheiro e Marido sem sotaque. Na Plaza Serrano, alguns garçons se viram ao escutar Capitão, Companheiro, Mestre, Parea, Chefe, Camarada, Cumpade e Irmão.

Todas as padarias terão coxinhas. Com catupiry nas melhores. Os sucos congelados de cajá, cajú e maracujá ocuparão finalmente um espaço nas prateleiras dos supermercados chinos. Depois as estradas serão ampliadas para receber as centenas de ônibus que invadirão o país com câmeras, bonés e camisas da Lacoste e levarão sacolas e mais sacolas da Florida, das Galerías Pacifico e dos outlets da Córdoba - que serão ampliados em trinta por cento. O tango não será substituído pelo samba, mas seu Jorge fará sucesso com uma versão remixada dos dois ritmos. Ao invés de tomarem mate num sábado à tarde, tomarão cerveja. Bem gelada e dentro de uma camisinha. Comendo coxinha. Os isonôs finalmente serão vendidos e lotarão as malas dos carros, as varandas das casas, as bordas das piscinas. Gelos serão vendidos por todos os lados, o Fernet com Coca será abolido, o vinho ficará um pouco mais caro.

Não vai ser fácil no começo, mas depois de algum tempo – ainda não se sabe quanto – os mullets serão cortados – sim, isso vai acontecer - e substituídos por penteados espetados por gels. O hot dog, que atualmente é chamado de Pancho, será Cachorro Quente ou Dogão e terá tomate, cebola, milho, ervilha, batata palha e queijo ralado. Catchup, maionese e mostarda. Andres Calamaro gravará um disco de Caetano, Charly Garcia vai cantar bossa nova e o axé vai continuar do mesmo jeito, porque já é muito famoso por aqui. Boca e São Paulo vai ser o clássico dos clássicos. O Sport continuará sendo o campeão brasileiro de 87, mas alguns taxistas discordarão. Os voos serão todos diretos: Cabrobó Buenos Aires sem vírgulas e sem escalas. Vinte e um de abril, sete de setembro, doze de outubro, dois de novembro, quinze de novembro e oito de dezembro serão feriados nacionais. A praça Brasil, que hoje é abandonada, marginalizada, em pouco tempo será revitalizada e entrará nos guias com shows de Ivete Sangalo, todos com faixinha na cabeça, cerveja Brahma, loló e pulando com seus tênis de mola.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

ELES

por Maria Rita Angeiras


Têm a malícia, a malandragem, o jeitinho sem querer de pisar na bola, como criança quando quebra um vaso, só pra ver se parte mesmo. E nós partimos, partimos mesmo. Em duzentos pedaços, colados, trincados, suados, recolocados. Amamos beijos, abraços, promessas. Promete o mundo que prometo acreditar, meu bem, minha casa, meu quase nada. Abre os braços, a vida, o caos, o lapso, vai que eu abraço. Minto eu, mentes tu, mas mentimos juntos. Mente pra mim. Minto pra mim também. Juro. Amamos ser enganadas, letradas na arte de amar, erradas. Apostamos alto, sempre. No pôquer, na loteria, no amor. Uma chance em um milhão. Vai que acertamos. Apostamos hoje, amanhã e depois, mesmo com o vaso sem um pedaço. Ou dois, ou três ou quatro. Amamos com fé, com alma, mas sem corpo fechado. Mutilado, cansado, sofrido, estendido no chão depois de morrer de vocês. Somos as outras. As outras, das outras das outras, até vocês fecharem o círculo passando por todas, com o nosso amor espalhado em bocas, com nossa dor zombada por outras. Mas abraça, beija, pede desculpa e faz graça. Em troca reclamo, te chamo, te amo, me engano. E, mais uma vez, faço do meu coração tua casa.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

POR BEM

por André Muhle


Por bem ou por mal, algumas coisas vão acompanhar nossas vidas para sempre. Por bem, elas servirão de inspiração para uma série de outras coisas. Por mal, elas ficarão nos fazendo sentir culpados por nossos erros e tropeços. Seja como for, é sempre melhor se concentrar nas primeiras. Hoje eu estou terminando a minha mudança. E acreditem, mudar de apartamento é como mudar de namorada. Você começa a comparar algumas questões como espaço, barulho e economia. Na grande maioria das vezes você termina por descobrir que não fez um bom negócio. Nem com a namorada, nem com o apartamento. Comparação é assim. As coisas ruins se sobressaem às coisas boas. Entre as caixas com os enfeites das prateleiras e os sacos plásticos com roupas e cartas antigas, encontrei uma dessas coisas que vão acompanhar minha vida para sempre. Um livro de capa cinza, todo desgastado, com a orelha se rasgando e as bordas se estufando. O Apanhador no Campo de Centeio. A última vez que o li, eu devia ter uns 18 anos. E lembro bem que ao final de cada releitura, marcava um “x” na última página. Para minha surpresa eu já tinha lido 7 vezes. Em se tratando de um livro, é coisa pra cacete. Foi um dos livros mais simples que já li na vida. E nunca consigo me esquecer daquele parágrafo do capítulo 16. O personagem do livro é um garoto cheio de problemas que foi expulso do colégio e tudo mais. Na última visita que ele fez pela escola, a um museu de história natural em Nova Iorque, ele diz assim:

"Mas a melhor coisa do museu é que nada lá parecia mudar de posição. Ninguém se mexia. A gente podia ir lá cem mil vezes, e aquele esquimó ia estar sempre acabando de pescar os dois peixes, os pássaros iam estar ainda a caminho do sul, os veados matando a sede no laguinho, com suas galhadas e suas pernas finas tão bonitinhas, e a índia de peito de fora ainda ia estar tecendo o mesmo cobertor. Ninguém seria diferente. A única coisa diferente seríamos nós. Não que a gente tivesse envelhecido nem nada. Não era bem isso. A gente estaria diferente, só isso. Podia estar metido num sobretudo, dessa vez. Ou o outro garoto, companheiro de fila da visita anterior, não tinha vindo porque estava com caxumba e a gente teria outro companheiro. Ou então a gente tinha ouvido o pai e a mãe da gente terem a maior briga no banheiro. Ou então a gente tinha acabado de passar, na rua, por uma poça d'água com um arco-íris de gasolina dentro dela. Quer dizer, a gente estaria diferente, de um jeito qualquer - não sei explicar direito, mas o negócio é assim mesmo."


Acreditem, eu escreveria isso na minha lápide. Sempre que viajo pra algum lugar, tento me concentrar nas coisas que não vão mudar nunca: uma árvore, um poste, uma pedra na calçada. Fico pensando que quando eu voltar lá, daqui há uns 40 anos, minha vida vai ser tão diferente. Filhos, netos, ex-mulheres. Mas a bendita da pedra vai continuar lá. Talvez um pouco mais desgastada, mais acabada, mas ainda assim, a mesma pedra. Isso dá uma tristeza estranha. Uma angústia. Uma amargura. Sei dizer não.

domingo, 10 de janeiro de 2010

ENQUANTO ELE NEGAR

por Maria Rita Angeiras


O sujeito não vai aguentar o aperto no peito. Vai se entregar quando descobrir o passo atrás que se despedia sem querer deixar, tropeçando no paralelepípedo o soluço da bebida, enquanto o braço dela corrigia o erro, segurando o dele bem forte. Vai equilibrar o cotovelo na mesa, apoiar o queixo na mão e fazer do bar da esquina sua segunda casa, tentando matar no gole a verdade que não desce, que amarga, que engasga. Vai lembrar do sorriso leve, mas vai recriar na cabeça a expressão triste, porque assim talvez ela sinta saudade, porque assim talvez ela não tenha tocado a vida, porque assim talvez ela espere. Vai procurar seu cabelo bagunçado nos lugares, caçar seu cheiro nos cantos, enquanto a outra reclina a cabeça no seu ombro roubado, investindo num eterno amor vulgar de cinco minutos. Vai batucar sonho no banco, disfarçando a saudade no meio do samba, mas o coração bate mais forte, ele sabe, ele sente, ele prefere não ouvir. Vai esfregar as palmas no rosto, apertar com força as pálpebras, que escondem por debaixo aquele olhar que procura a porta e sai do lugar correndo, deixando o corpo pra trás, velado por todas as outras mulheres que nem fazem seu tipo. Vai lembrar dos diálogos como um mantra e vai desejar morrer logo, só pra não sofrer morrendo aos poucos, porque assim ele para de lembrar dela de uma vez e ela para de sofrer por ele tantas vezes. Vai bater no ombro, beliscar o braço, fechar a porta no dedo e agradecer cada segundo em que a cabeça se distrai e foca em outra dor que não aquela. Vai procurar no tórax o lado certo do coração, ficando em dúvida entre o esquerdo e o direito, e vai descobrir lá mesmo, num pedaço abandonado do recinto, que ama a mulher que nunca disse que amou. O sujeito não vai aguentar o aperto no peito. Ele não vai.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

NOITE FELIZ (II)

por Rafael Moreno


No ano de 2009 as árvores de natal ficaram vazias, com luzes que deixaram de piscar à meia noite, com bolinhas que caíram ao piso e se partiram em mil e com galhos que se desmancharam no chão e se transformam em grama cortada. No ano de 2009 as meias penduradas nas chaminés de todo o mundo ficaram sem doces, sem surpresas e se sujaram a ponto de não poderem mais ser utilizadas nos pés depois. No ano de 2009 os coros das igrejas cantaram Rolling Stones, com um solista que pulava os degraus e gritava com a garganta. Os presépios caíram como um dominó e se espalharam pelo chão, alguns chegando a invadir a calçada. No ano de 2009 os padres beberam mais vinho do que o normal e trocaram a sua música clássica por um samba de Zeca Pagodinho, sem usar batina. Nesse mesmo ano, o de 2009, os amigos secretos continuaram sendo secretos e os inimigos secretos ficaram com seus próprios presentes. Os perus dançaram a conga, comemorando o fato de continuaram vivos, e se abraçaram certos de que passariam o ano novo tomando champanha francês. Sim, alguns perus chamam champanhe de champanha.

No ano de 2009 Thiago entrou pela chaminé da casa do Papai Noel enquanto ele vestia a calça vermelha sobre sua samba canção branca de bolinhas também vermelhas e o enforcou com o cinto preto, que estava sobre a cadeira, enquanto dizia: quero ver você fazer ho, ho, ho agora! Depois matou cada um dos seus duendes, soltou as renas e queimou na fogueira o pó que fazia elas voarem. Na mesma fogueira, jogou todos os presentes, alimentando as chamas com as cartinhas mal escritas de milhares de crianças e em diversos idiomas. Depois subiu no trenó, brincou um pouco na neve e voltou pra casa.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

GEORGE H.

por Maria Rita Angeiras


Quando você dá aquele sorrisinho tímido de canto de boca nos primeiros segundos da música, eu olho pra tela do computador com a cabeça inclinada, em estado de graça, e peço baixinho pra um dia encontrar alguém que faça isso de um jeitinho tão apaixonante quanto você. E mesmo não sendo um dos Beatles preferidos da maioria esmagadora, você é o meu, porque desde aquele dia virei refém do exato segundo 00:07 em que você começa a cantar Here Comes The Sun, enquanto mulheres histéricas vão ao delírio com seu tipinho bagunçado e desleixado. E eu me contorço de ciúmes. E chego a te amar por alguns minutos, sempre, e te daria casa, comida e roupa lavada se todos os dias de manhã eu pudesse virar pro lado só pra ouvir você me chamar de “little darling” e dar aquele sorrisinho de canto de boca irresistível. E a minha sala, meu coração, minhas letrinhas, meus livros, minha alegria e toda a minha poesia distraída se alimentariam só dele, porque eu tenho certeza que ninguém precisa de muito mais do que isso pra ser feliz nessa vida. E recentemente decidi que nenhum cara bonito, inteligente, bacana e educado vai me conquistar facilmente, a não ser que tenha um sorriso escondido igualzinho ao seu e me ganhe nos primeiros sete segundos. Mas é tão difícil que eu fico vagando por aí, procurando em lugares fechados, barulhentos e com cheiro de cigarro o seu sorriso que ninguém tem e a sua música que ninguém canta, fora eu, que odeio os dias de chuva.



blog pessoal: http://eusouurgente.blogspot.com

domingo, 13 de dezembro de 2009

VOCÊ

por André Muhle

Você que sempre anda cinco centímetros acima do chão.
Que desce as escadas como se estivesse num comercial de Shampoo.
Que nunca precisou fazer terapia pra esquecer um amor não correspondido.
Você que adora o romantismo nos filmes, mas foge dele na vida real.
Que está sempre com o olhar fixado acima do nível do mar.
Que foi a rainha do milho aos 7 anos, foi a Miss Teen aos 14
e ganhou o concurso da Garota Camisa Molhada aos 23.
Você que sempre ouviu dez vezes mais “sim” do que “não”.
Que consegue descontos só com um sorriso.
Que não fica feia nem em foto de passaporte.
Que sempre deixa as pessoas segurando a porta do elevador.
Você que faz o Wando parecer um poeta incrível.
Que entra na curva sem ligar a seta porque acha
que todo mundo tem obrigação de saber que você vai dobrar.
Que não come nem o alface nem o tomate do filé com fritas.
Que pensa que seu cabelo é o seu bem mais valioso.
Você que tem os olhos tão claros, a boca tão vermelha
e a pele tão leitosa. É, você tem tudo isso mesmo.
Que só bebe caipirosca de frutas vermelhas,
Que nunca retorna uma ligação, ou melhor,
Que passou três meses para anotar meu nome no seu celular.
Você que sabe que seus filhos vão ser lindos,
independente de quem seja o pai.
Você que não sofre.
Que não chora.
Que não vive.
Você que não se apaixona,
Faça um grande favor pra mim, vai pra merda.